Vingança final de Trump atingirá CIA, FBI e cientistas que não acataram seus delírios, por Heloisa Villela

Furioso, presidente derrotado aproveitará os últimos dias de mandato para exercer seu poder e destituir funcionários de alto escalão, em várias áreas, que na visão dele atrapalharam os planos de reeleição ao não cumprirem suas ordens.

Está aberta a temporada de caça às bruxas. Ao que tudo indica, a demissão do secretário de Defesa, Mark Esper, foi apenas o começo. Os republicanos acreditam que, apesar de terem apenas dois meses e alguns dias de mandato, o presidente Donald Trump vai fazer uma limpa na administração que ainda tem em mãos. E o objetivo principal é ir à forra. Dar o troco nos que não se comportaram como ele queria e não fizeram o que, na opinião do candidato derrotado, poderia ter virado o jogo a seu favor.

Os próximos da lista seriam os chefões da CIA e do FBI. Esses cargos têm mandato de 10 anos, mas são de absoluta confiança do presidente. Trump não está nada satisfeito com o desempenho de Ginal Haspel, diretora da CIA, e com Christopher Wray, chefe do FBI. Ela tinha ainda outros oito anos à frente da organização encarregada da espionagem internacional. Já Wray ficaria no FBI até 2027, se não tivesse problemas com o morador da Casa Branca. Trump e muitos republicanos acham que ambos deviam ter levado mais a sério e investigado a fundo as alegações de que o governo Obama espionou a campanha de Donald Trump, antes dele se eleger em 2016. Além disso, estão convencidos de que Gina Haspel deveria ter se aprofundado na denúncia apresentada por Rudoph Giuliani, que somente um tabloide de Nova Iorque levou a sério.

A história teve início nos últimos meses da campanha eleitoral e falava sobre o surgimento de um tal HD de computador, que pertenceria a Hunter Biden, filho do presidente eleito. Nele, haveria uma troca de e-mails capaz de incriminar Hunter e, talvez, até mesmo Joe Biden. Negócios com a Ucrânia, dinheiro trocando de mãos, recados cifrados. Todos os ingredientes necessários para um bom filme de suspense, ou para uma investigação criminal com potencial devastador. Será? Ninguém sabe, e talvez não se saiba nunca. Mas se a história fosse igualzinha, com nomes como Eric Trump no papel do filho e o conhecido Donald no lugar do pai, talvez a investigação estivesse a todo vapor.

Existe uma grande diferença a respeito do tratamento que a imprensa americana dá aos Trump e aos Biden. Não se pode duvidar. Mas que a CIA e o FBI façam o mesmo, já é um pouco demais. Antes de deixar o governo, Trump vai se vingar dos que considera responsáveis pela falta de interesse nos negócios do adversário.

A área da Saúde também pode sofrer baixas nos próximos dias. O primeiro nome da lista seria o diretor do Centro de Controle de Doenças, em Atlanta, Robert Redfield. Ele é o virologista que assumiu o controle do órgão em março de 2018. Trump não gostou quando o doutor Redfield rompeu com o governo e começou a fazer recomendações a respeito das formas de prevenção da doença. É a demissão certa no momento errado. O CDC devia ter passado por uma mudança logo no começo da pandemia, porque deu uma prova de incompetência incrível. Se recusou a aceitar os testes de Covid-19 oferecidos pela OMS, dizendo que produziria os próprios. Eles deixaram o laboratório em Atlanta, chegaram os centros de saúdo do país, e deram vários problemas. Tinham defeitos. Foram contaminados no laboratório. Com isso, o país perdeu mais de um mês de monitoramento da doença logo no começo da contaminação. Nesse caso, Trump pode dar o tiro certo pelo motivo errado.

Só que quem ele realmente gostaria de demitir é o diretor do Departamento de Alergias e Doenças Contagiosas do Instituto Nacional de Saúde, o doutor Anthony Fauci. Nas primeiras rodadas de coletivas diárias que Trump presidiu, na Casa Branca, o doutor Fauci, com muito jeito, mas também com bastante firmeza, contrariou declarações do presidente ao vivo, diante do público. Nunca apoiou o uso da cloroquina, por mais que Trump tenha insistido, e sempre alertou para os perigos que o país enfrentaria. A voz rouca, calma, as explicações claras, são marcas do cientista que se tornou a face do combate ao coronavírus nos EUA. O mesmo rosto que estava diante das pesquisas do instituto durante a crise da Aids. Entretanto, com esse cientista, Trump não vai poder mexer, por mais que queira e tenha até anunciado nos últimos comícios da campanha. Será mais uma promessa não cumprida, porque o cargo de Fauci não é uma indicação política. Ele está a salvo da metralhadora giratória de última hora.

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Heloisa Villela

Correspondente da Fórum em Nova York.