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06 de agosto de 2019, 22h47

Em resposta a intromissão política de Trump, Uruguai alerta sobre perigos de se viajar aos EUA

Ao contrário do governo de Jair Bolsonaro, no Uruguai a soberania é um conceito levado a sério e o comunicado do governo é claramente uma resposta à decisão dos Estados Unido de aumentar o nível de alerta recomendadas aos norte-americanos que queiram viajar ao país governado por Tabaré Vázquez

Fachada da presidência do Uruguai atrás da estátua de José Artigas, herói da independência e símbolo da soberania uruguaia (Foto: Rogério Tomaz Jr.)

Por Rogério Tomaz Jr*, de Montevidéu 

O Ministério de Relações Exteriores do Uruguai divulgou, nesta segunda-feira (5), comunicado no qual sugere aos cidadãos que pretendem viajar aos Estados Unidos que tomem “precauções diante da crescente violência indiscriminada” que “custaram a vida de mais de 250 pessoas nos primeiros sete meses do ano” em massacres com armas de fogo.

Ao contrário do governo de Jair Bolsonaro, no Uruguai a soberania é um conceito levado a sério e o comunicado ministerial é claramente uma resposta à decisão dos Estados Unidos, anunciada na última sexta-feira (2), de aumentar o nível de alerta recomendado aos norte-americanos que queiram viajar ao país governado por Tabaré Vázquez. Até a semana passada o Uruguai estava na lista de destinos com nível 1 de recomendações: “tomar precauções normais”. A partir de agora, o país está equiparado ao Brasil, com nível 2: “maior preocupação devido à criminalidade”.

O documento uruguaio menciona explicitamente o racismo e a discriminação como causas dos “crimes de ódio” e relaciona estes fatores com a “posse de armas indiscriminada” por parte da população estadunidense. Três cidades – Detroit (Michigan), Baltimore (Maryland) e Albuquerque (Novo México) – são listadas como destinos a se evitar, em razão de estarem entre as 20 mais perigosas do mundo segundo índice da revista CEOWorld.

Intromissão política

A mudança de status do Uruguai é considerada uma ação política do governo Trump para favorecer a direita nas eleições de outubro. O ministro de Relações Exteriores uruguaio, Rodolfo Nin Novoa, reclamou expressamente disso. “Entendo que [o governo dos Estados Unidos] se mete na campanha eleitoral. Não é novidade das embaixadas americanas na América Latina”, disse o chanceler em entrevista ao site Subrayado.

Novoa também lembrou que nenhuma cidade uruguaia está entre as 50 mais perigosas do mundo.

A segurança pública é o principal tema do debate eleitoral e a pauta é usada de forma alarmista pela oposição à Frente Ampla, coalizão de centro-esquerda que governa o país desde 2005 e tentará obter nas urnas o quarto mandato. “Sem dúvida alguma a decisão dos Estados Unidos foi uma medida de natureza política. E, obviamente, o comunicado do Uruguai é uma resposta política a essa intromissão indevida da administração Trump”, diz um professor de Ciência Política em Montevidéu que prefere manter sua identidade preservada.

Ainda que os indicadores de violência e criminalidade do Uruguai estejam entre os mais baixos das Américas, nos anos recentes houve um aumento do número de homicídios e de crimes como furtos e roubos. Nesse contexto, o Partido Nacional – espécie de PSDB uruguaio – propôs uma reforma constitucional que vai permitir o uso das forças militares nas ações de segurança pública, entre outras medidas que praticamente institucionalizam um Estado de sítio no país de 3,5 milhões de habitantes. Uma consulta sobre a proposta de reforma será realizada no mesmo dia das eleições, 27 de outubro.

Números

No ano de 2018 foram registrados 382 assassinatos no Uruguai, recorde histórico no nosso vizinho austral. Em 2017 foram 283 crimes desse tipo, contra 268 em 2016. Apesar do forte crescimento, o Uruguai ainda está bem longe dos países com as maiores taxas de homicídios nas Américas. A taxa de homicídios por 100 mil habitantes do Uruguai (8,2) o coloca na vigésima posição entre os países das Américas. Apenas Canadá, Chile, Cuba, Estados Unidos, Argentina, Peru e Equador, além de algumas pequenas nações caribenhas insulares, possuem índice mais baixo do que o país de José “Pepe” Mujica. Os dados completos estão no relatório “Estudo global sobre homicídios”, produzido pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODOC) e divulgado em julho.

 

*Rogério Tomaz Jr. é jornalista, viveu em Montevidéu e está escrevendo o livro “Conversando com Eduardo, viajando com Galeano”


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