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18 de março de 2020, 10h02

Exclusivo: “Não se pode descartar uma recessão em 2020”, diz Paulo Nogueira Batista Jr.

Ex-diretor do FMI durante a crise de 2008, economista diz que cenário atual é ainda mais grave e que reação "nervosa" do Federal Reserve contribui para o pânico no mercado financeiro

Paulo Nogueira Batista Jr. (Reprodução)

Diretor-executivo do Fundo Monetário Internacional (FMI) durante a crise financeira de 2008 e ex-vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento, estabelecido pelos BRICS durante o governo Dilma Rousseff (PT), o economista Paulo Nogueira Batista Jr. afirmou, em entrevista exclusiva à Fórum, que o cenário atual é ainda mais grave e que há perspectivas de recessão em 2020, com consequências macroeconômicas mais fortes e prolongadas.

“Não se pode descartar uma recessão em 2020 isto é, queda do nível da atividade. O sistema financeiro exibe sintomas de fragilidade em vários países, acumuladas durante a longa fase de bonança que antecedeu a crise atual. Se a crise atingir instituições financeiras, as consequências macroeconômicas serão mais fortes e prolongadas”, diz.

Para o economista – autor do livro O Brasil não cabe no Quintal de Ninguém -, a reação nervosa do Federal Reserve, o Banco Central dos EUA, gerou dúvidas entre agentes do sistema financeiro e contribui para a derrubada dos mercados mundo afora.

“Se o banco central atua de forma tão extremada, o que será que ele sabe sobre a economia e o sistema financeiro que nós ainda desconhecemos? Essa é provavelmente a dúvida dos investidores”, afirma ele, ressaltando a importância do investimento público para conter a crise, mesmo sob risco de gerar bolhas no mercado de crédito para o futuro.

Leia a entrevista na íntegra

Fórum: Esta última crise econômica se aprofunda com a pandemia do coronavírus, que está derretendo as bolsas de valores mundo afora. É uma “crise” conjuntural ou mostra que a estrutura econômica do mundo ruiu? O que fazer diante disso?
Paulo Nogueira Batista Jr.: O que estamos vivendo não é uma crise conjuntural. A crise não é provavelmente passageira ou momentânea. Ela terá, tudo indica, consequências econômicas duradouras e graves. Mas é um exagero dizer que a estrutura econômica do mundo ruiu, ainda que as estruturas econômicas e financeiras venham a ser abaladas de forma difícil de reverter. É a crise mais grave do capitalismo desde 2008-2009. Talvez a atual seja mais grave do que aquela, uma vez que a pandemia pegou a economia e as finanças mundiais em fase de dificuldades crescentes. Haverá forte desaceleração da economia mundial. Não se pode descartar uma recessão em 2020 isto é, queda do nível da atividade. O sistema financeiro exibe sintomas de fragilidade em vários países, acumuladas durante a longa fase de bonança que antecedeu a crise atual. Se a crise atingir instituições financeiras, as consequências macroeconômicas serão mais fortes e prolongadas.

Fórum: Quais seriam as respostas mais eficazes do ponto de vista econômico no atual momento?
Paulo Nogueira Batista Jr.: A reação das autoridades econômicas e financeiras já começou. Os bancos centrais, que podem reagir com mais rapidez do que os governos, estão reduzindo as taxas de juro, injetando liquidez em mercados estressados e anunciando a retomada de compras de títulos em larga escala. O espaço para a atuação dos bancos centrais é mais reduzido do que em 2008, pois as taxas de juro já são negativas em termos nominais em grande parte da Europa e do Japão. Os EUA, que tinham taxas mais altas, já jogaram os juros para próximo de zero. Aliás, foi uma reação nervosa do Federal Reserve, que reduziu a taxa básica duas vezes entre reuniões do comitê de mercado aberto – algo sem precedentes, até onde sei. Inesperadamente, a reação rápida e radical da Reserva Federal gerou insegurança e reações defensivas do mercado. Se o banco central atua de forma tão extremada, o que será que ele sabe sobre a economia e o sistema financeiro que nós ainda desconhecemos? Essa é provavelmente a dúvida dos investidores. Seja como for, afrouxamento monetário é sem dúvida indispensável e os bancos centrais serão tão mais bem-sucedido quanto maiores forem as chances de que eles possam atuar com alguma coordenação e, principalmente, se for possível combinar política monetária expansiva com medidas de expansão fiscal, isto é, aumentos de gastos correntes e investimentos públicos, além de redução da carga tributária. No fundo, seria a repetição da fórmula de 2008-2009. É o que muitos economistas estão pedindo nos EUA e na Europa. Não sei se os economistas vão repetir o mesmo e surrado padrão: lutar a nova guerra com instrumentos usados na guerra anterior, com sucesso apenas relativo na melhor das hipóteses.

Fórum: Muitos países estão estimulando o crédito por meio de bancos públicos e privados. Existe risco de isso virar uma bolha de endividamento num futuro próximo? Quem vai acabar sendo penalizado com isso?
Paulo Nogueira Batista Jr.: O risco de gerar bolhas no mercado de crédito para o futuro existe, sim. Mas ninguém pensa nisso num momento de emergência. A urgência é enfrentar os impactos adversos das bolhas financeiras que estão estourando agora, bolhas que são produtos dos excessos de exuberância dos mercados na longa fase de otimismo que antecedeu a crise atual. Nas fases de otimismo e euforia, os investidores ficam superconfiantes, arriscam demais, fazem apostas precárias e se endividam para especular. Quando vem a reversão do mercado, resultante de um ou mais choques adversos, o otimismo se converte em pessimismo e pânico com uma velocidade estonteante. É o que estamos vendo desde fevereiro.


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