Extrema-direita brasileira faz a mesma coisa que a alemã, diz jornalista de Berlim ao comentar caso Filipe Martins

Segundo o jornalista alemão Niklas Franzen, o partido de extrema-direita de seu país usa a mesma tática do assessor de Bolsonaro de "experimentar limites"; "Tendência global", aponta

Marcada pelo fenômeno do nazismo, a Alemanha possui, atualmente, leis rígidas que criminalizam manifestações racistas e que fazem referência elogiosa ao regime de Adolf Hitler. Isso não impede, entretanto, que grupos de extrema-direita encontrem novas maneiras de propagar discursos de ódio, tal como fez o assessor presidencial brasileiro Filipe Martins, que nesta quarta-feira (24), durante audiência no Senado, fez um gesto de supremacistas brancos – um movimento racista de extrema-direita com atuação mundial mas, principalmente, nos Estados Unidos.

Em momento que aparecia nas câmeras, Martins fez com as mãos um gesto que parece remeter ao símbolo “WP”, em referência a lema “white power” (“supremacia branca”). O gesto feito por ele parece ter como objetivo incitar grupos de supremacia branca, atitude conhecida como “dog whistle” (“apito de cachorro”, em português). Para se justificar, o assessor usou uma resposta pronta, já que a forma como o gesto é feita se dá justamente para abrir margens a outras interpretações: “Estava ajeitando a lapela do terno”, disse.

“Ele fez um sinal de supremacia branca enquanto arruma o terno. É muito difícil ele dizer que não sabe o que está fazendo. É um sinal de supremacia branca. É um sinal que é usado como senha em diversos grupos, como o Proud Boys”, disse à Fórum a antropóloga Adriana Dias, que é doutora em antropologia social pela Unicamp, pesquisa o fenômeno do nazismo e atua como colunista.

Para o jornalista alemão Niklas Franzen, que atualmente escreve para veículos de Berlim, o gesto do assessor de Bolsonaro “não foi uma coincidência”. “Todo mundo viu que a intenção ficou clara, queria passar uma mensagem. Não foi a primeira vez que o Filipe Martins se pronunciou daquele jeito”, disse Franzen em entrevista à Fórum, citando outros episódios parecidos envolvendo Martins como quando ele, por exemplo, postou em seu Twitter um dos lemas do grupo neonazista alemão Combat 18 – C18 ou 318 –, suspeito de envolvimento no assassinato de diversos imigrantes, negros e um político.

O jornalista lembrou ainda da ocasião em que Filipe Martins publicou um poema citado na abertura do manifesto de Brenton Tarrant, terrorista de extrema-direita que foi condenado pelo assassinato de 51 pessoas em uma mesquita na Nova Zelândia em março de 2019. Antes de promover o atentado, Tarrant publicou nas redes o manifesto The Great Replacement (“a grande substituição”), em que constava um poema de autoria do poeta galês Dylan Thomas (1914-1953). O mesmo poema foi publicado pelo assessor de Bolsonaro ao atualizar sua foto de perfil no Twitter em abril de 2019, um mês após o massacre. Na ocasião, Martins publicou a imagem de um ataque de cavalaria. Acima dos cavaleiros, aparece a inscrição “Do not go gentle into that good night”.

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Franzen rememorou também o discurso do ex-secretário de Cultura de Bolsonaro, Roberto Alvim, que fazia referência a um discurso Joseph Goebbels, ministro da propaganda da Alemanha nazista, e de postagem recente de tom antissemita feita pelo ex-deputado Roberto Jefferson, atualmente um dos principais nomes que liga o “centrão” no Congresso Nacional ao bolsonarismo.

“O que a gente vê é que a extrema-direita brasileira está usando certos conceitos que na verdade são racistas, fascistas e neonazistas. E como jornalista alemão, me choca que precisemos ter que discutir isso”, afirmou o jornalista.

Segundo o repórter, que tem relação próxima com o Brasil e escreve regularmente para veículos brasileiros, “quando a gente discute sobre a extrema-direita, a gente tem que levar em conta que é uma tendência global”. “Mesmo com o fato de que a Alemanha tem leis mais rígidas [para coibir manifestações da extrema-direita], nós temos um movimento muito forte de neonazismo e especialmente de terrorismo neonazista”, revelou, citando casos recentes de ataques promovidos por grupos racistas e neonazistas contra imigrantes na Alemanha.

O jornalista analisa que as táticas que vêm sendo usadas pela extrema-direita ao redor do mundo são parecidas e que se refletem em gestos como o feito por Filipe Martins, que é um representante institucional. Ele citou o exemplo do AFD (“Alternative für Deutschland” – em português, “Alternativa para a Alemanha”), partido de extrema-direita alemão que tem representação parlamentar e cujo vários membros têm ligações com organizações neonazistas.

“Nós temos aqui um partido no parlamento o AFD, são ‘amiguinhos’ do Bolsonaro, há várias conexões entre o governo Bolsonaro e esse partido, que também faz as mesmas coisas que o Filipe Martins. Talvez não daquela maneira, mas eles sempre experimentam com os limites, para onde podem ir com suas falas e discursos”, pontuou.

O jornalista alerta para o fato de que o gesto de “white power” feito pelo assessor de Bolsonaro não é muito conhecido na Alemanha, por ser usado mais por grupos estadunidenses, mas ponderou que, se um político alemão o fizesse e o símbolo fosse reconhecido, certamente ele seria processado.

“Esse avanço do fascismo, do nenonazismo e do racismo é uma tendência global que a gente deveria discutir de uma maneira também global”, acentuou.

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Ivan Longo

Jornalista, editor de Política, desde 2014 na revista Fórum. Formado pela Faculdade Cásper Líbero (SP). Twitter @ivanlongo_

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