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16 de julho de 2018, 10h51

França e Croácia, futebol e política: uma final sob medida

Além do campo e bola, decisão da Copa simboliza conflitos entre nacionalismo e imigração

(Foto: Reprodução)

Por Lucas Caetano*

Steve Mandanda, Samuel Umtiti, Thomas Lemar, Raphael Varane, Blaise Matuidi, Nabil Fékir, Kylian Mbappé, Presnel Kimpembe, Steven N’Zonzi, Lucas Hernández, Alphonse Aréola, Paul Pogba, Adil Rami, Ousmane Dembélé, N’Golo Kanté, Djibril Sidibé, Antoine Griezmann, Benjamin Mendy e Corentin Tolisso. A seleção francesa conta com 17 atletas descendentes de imigrantes e dois naturalizados (Umtiti e Mandanda, nascidos em Camarões e República Democrática do Congo, respectivamente). Seus grupos vivem hoje sob a ameaça de um ultranacionalismo galopante na Europa.

Bojna Cavoglave. Canção adotada pela extrema-direita croata durante a Segunda Guerra Mundial, cujo trecho “Za dom — spremni! (Pela pátria! Preparados!” reproduz o slogan associado ao regime-fantoche nazista Ustase, responsável pela morte de 300 mil a 500 mil sérvios entre 1941 e 1945. Após a vitória sobre a Argentina na primeira fase, o zagueiro Lovren gravou um vídeo cantando a música acompanhado pelo lateral Vrsaljko. Eles não pronunciaram a frase, mas esse detalhe não anula a polêmica do conteúdo e seu vínculo com o genocídio naquele período.

Em meio às comemorações do triunfo diante da Rússia nas quartas-de-final, foi a vez de Domagoj Vida, também em vídeo, chamar os holofotes ao dizer “Glória à Ucrânia!”, em nítida provocação aos donos da casa, além de aludir à capital sérvia por meio do grito “Queime Belgrado!”. Já o capitão Modric se encarregou de fazer um gesto análogo à saudação nazista ao celebrar seu gol contra os argentinos, ou seja, algo passível de ser interpretado como um aceno ustasha. O craque, por sinal, está sendo investigado em razão de um falso testemunho a favor do ex-vice-presidente da federação croata, Zdravko Damic, condenado à prisão no mês passado por desvio de verbas.

 

(Foto: Reprodução)

 

A Sérvia esteve envolvida em outro evento nesta Copa. Ao sofrer virada para a Suíça, a equipe viu os autores dos gols, Xhaka e Shaqiri, os festejaram exibindo com as mãos o sinal de uma águia de duas cabeças. A ave simboliza a Albânia, país originário da maioria das pessoas nascidas em Kosovo, entre elas Shaqiri e os pais de Xhaka.

Romelu Lukaku, Vincent Kompany, Youri Tielemans, Axel Witsel, Michy Batshuayi, Adnan Januzaj, Moussa Dembélé, Marouane Fellaini, Nacer Chadli e Yannick Carrasco. A exemplo dos franceses, a Bélgica também reúne vários jogadores oriundos de imigrantes. Filho de congoleses, Lukaku relatara, em emocionante texto publicado durante a Copa:

“Quando as coisas corriam bem, eles me chamavam de Romelu Lukaku, o atacante belga. Quando as coisas não corriam bem, eles me chamavam de Romelu Lukaku, o atacante belga descendente de congoleses”

Tão revoltante quanto sintomático, o depoimento desnuda as contradições emergentes da relação futebol-política. Porque o esporte é imensuravelmente especial e poderoso, capaz de gerar alguma admiração a esta gente por parte dos seres mais repugnantes. Até a maior figura da extrema-direita na França, Marine Le Pen, abriu mão de provocações ao enaltecer via Twitter a classificação à final, destacando inclusive o “júbilo popular”, numa cretina dissimulação.

 

“Eu não sei absolutamente nada sobre futebol, mas a partir do momento em que a França está na final, todos participam do júbilo popular. Nós somos os melhores!”

 

Em tempos nos quais crises sociais envolvendo a imigração no continente se escancaram, rivalidades históricas — explícitas ou adormecidas— reaparecem para dar ainda mais vigor à questão e denunciar que, por trás dos ídolos de uma nação, podem se esconder traços profundamente abjetos.

Futebol e política sempre caminharam lado a lado; ora a certa distância, ora de mãos dadas firmemente. Contudo inseparáveis. Assim, Moscou será palco de uma final sob medida, a mais emblemática possível dentro deste cenário. Aos que levam o caso mais a sério, escolher um lado para torcer significa de certa maneira posicionar-se ideologicamente.

Imagine se Eric Cantona fosse a campo neste domingo…

 

Francês, o ídolo do Manchester United deu esta voadora em um torcedor adversário durante jogo contra o Crystal Palace, em 1995

Enquanto isso, Carlos Alberto Parreira, um dos artífices do 7×1 em 2014, e, mais recentemente, Tiago Leifert, ícone do novo “jornalismo” esportivo, defendem que futebol e política não se misturam.

Tomem mais esta voadora de evidências.

 

*Lucas Caetano é jornalista. Texto publicado originalmente aqui.


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