Golpe da vacina: presidente da Colômbia usa pandemia para justificar prorrogação de seu mandato

Governo de direita quer adiar as eleições para a presidência e o parlamento por 2 anos, e promete usar os recursos que seriam gastos nos processos eleitorais de 2022 para comprar mais vacinas

A vacinação contra a covid-19 é o tema mais importante do momento em todos os países do mundo, mas será que ela justifica até mesmo o adiamento das eleições? A pergunta parece meio forçada, mas na Colômbia ela é o tema do momento, já que o partido do presidente Iván Duque propôs recentemente um projeto no qual promete usar gastos com processos eleitorais para comprar mais vacinas.

Por enquanto, a agenda eleitoral colombiana prevê que as próximas eleições presidenciais e legislativas acontecerão em maio de 2022 – e, no caso das presidenciais, também em junho, se houver a necessidade de um segundo turno.

Porém, nesta segunda-feira (15) surgiu uma proposta inusitada, de parte de Gilberto Toro, presidente da Federação Colombiana de Municípios e membro do partido de direita Centro Democrático, o mesmo pro presidente Duque e do caudilho de extrema-direita Álvaro Uribe.

Segundo a proposta, as próximas eleições devem ser adiadas para os meses de novembro e dezembro de 2023, para que a economia de recursos seja redirecionada à compra de ao menos 40 milhões de doses de vacinas contra a covid-19 – infecção causada pelo coronavírus SARS-CoV-2, responsável pela pandemia que assola o planeta desde 2020 e que já matou mais de 2,5 milhões de pessoas. Caso seja aprovada, ela permitiria ao atual presidente estender o seu mandato até meados de 2024.

Em um princípio, a proposta de Toro foi elogiada por algumas figuras do governo. O ministro da Justiça, Wilson Ruiz, chegou a afirmar que tal medida significaria uma economia de cerca de 130 milhões de dólares, que “poderiam ser, realmente, um grande reforço para a campanha de vacinação no país”.

Também se usou o argumento de que outros países, como o Chile e a Bolívia, também adiaram eleições recentemente por causa da pandemia – a Bolívia tina eleições presidenciais marcadas para maio de 2020, mas elas aconteceram somente em outubro, depois de dois adiamentos, enquanto o Chile mudou a data de suas eleições municipais de novembro de 2020 para abril de 2021, em ambos os casos, a diferença foi de apenas alguns meses, não de anos.

O autor da proposta, Gilberto Toro, declarou que “este é um momento para soluções mais abrangentes, para minimizar a quantidade de recursos que vão para as eleições e são necessários para o plano de imunização (…) Neste momento, temos que concentrar o dinheiro no que mais interessa, que é a vida e a saúde dos colombianos”.

Por outro lado, a oposição viu na proposta uma tentativa de golpe. O senador progressista Gustavo Petro, adversário de Duque no segundo turno em 2018, classificou o projeto como “uma tentativa de golpe parlamentar vinda do núcleo duro do uribismo” – setor político liderado por Álvaro Uribe, do qual Iván Duque também faz parte.

“Há alguns parlamentares que propõem prorrogar o governo Duque e o mandato do Congresso por dois anos e não realizar eleições no próximo ano, usando a covid como desculpa. Seria um golpe parlamentar”, disse o senador opositor em um tuíte.

Em outra mensagem nas redes sociais, o senador completou “não se trata de Gilberto Toro, é o núcleo duro do uribismo e do liberalismo que quer propor o golpe parlamentar para prorrogar o mandato de Duque por dois anos a mais. Não é uma brincadeira, eles estão falando sério”.

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Victor Farinelli

Jornalista formado pela Universidade Católica de Santos, há 15 anos é correspondente na Argentina (2004 e 2005) e no Chile (desde 2006).

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