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05 de junho de 2019, 06h00

Governo Bolsonaro fecha cinco embaixadas criadas por Lula no Caribe

O Ministério das Relações Exteriores já fechou cinco das 67 embaixadas brasileiras criadas por Lula e avalia encerrar mais duas. Os alvos são países do Caribe, na América Cental, e da África Ocidental. A expansão da rede diplomática ajudou a aumentar a projeção do Brasil no cenário internacional e a alcançar postos como o comando da FAO e da OMC.

Lula em Cúpula Brasil-Comunidade do Caribe (CARICOM), em 2010 | Foto: Gustavo Ferreira/ MRE

O Ministério das Relações Exteriores, comandado por Ernesto Araújo, já fechou embaixadas do Brasil em cinco países do Caribe, na América Central. O governo Bolsonaro quer encerrar as embaixadas abertas nos governos Lula, de 2003 a 2010. Para o ex-ministro Celso Amorim, essa atitude não reduz gastos significativos, apenas gera consequências negativas.

As embaixadas de Roseau (Dominica), St. John’s (Antígua e Barbuda), St. George’s (Granada), Basseterre (São Cristóvão e Névis) e Kingstown (São Vicente e Granadinas) já tiveram suas atividades encerradas pelo governo Bolsonaro. Segundo o jornalista Daniel Rittner, no Valor Econômico, foram utilizados quatro critérios: baixa representatividade de comunidade brasileira, volume de trabalho administrativo, pouca expressão do comércio bilateral e os custos orçamentários.

Em entrevista à Fórum, o ex-ministro de Relações Exteriores Celso Amorim considerou que essa atitude revela uma “visão estreita” e sinaliza um “desmonte”. “Ao tomar essa atitude, o ministério não reconhece a importância do Brasil no Caribe, que não pode ser medida apenas por comércio. Esses países são pequenos, então a relação comercial vai ser pequena, mas essa proximidade é importante para prestígio internacional, questões eleitorais na ONU, para negócios, segurança.”

Além da justificativa comercial, Amorim também divergiu do argumento orçamentário. “O custo dessas embaixadas é mínimo, é ‘ridículo’. Isso apenas demonstra um desinteresse”, disse. Para o ex-chanceler, essa postura com a região pode trazer consequências políticas no futuro: “Os caribenhos agem muito em conjunto, principalmente pela Comunicade do Caribe (Caricom). O Brasil, que já perdeu um assento na Corte Internacional de Justiça para um caribenho, está abdicando desse apoio”.

O pesquisador Pablo Fontes, doutorando em relações internacionais na PUC-Rio e integrante do grupo de pesquisa “Integração Sul: autonomia e desenvolvimento” da UFRJ, também avalia que essa justificativa é despropositada. “O custo operacional é irrisório. Os ganhos que saem desses lugares, seja por cooperação técnica, agrícola ou turismo, serão afetados, principalmente sendo todas essas embaixadas da região caribenha. Achar que isso não interfere é um equívoco, principalmente porque se passa uma mensagem de ‘olha, as nossas relações são insignificantes'”, disse.

Durante o governo Lula foram criadas 67 novas embaixadas, priorizando países da América Latina e da África. Para Fontes, sob a ótica do multilateralismo, todos os postos abertos em politicas externas foram muitos significativos e esse movimento do governo Bolsonaro faz o Brasil “perder capital simbólico” e reduzir seu papel no cenário global.

A expansão dos postos diplomáticos ajudou a aumentar a projeção do país no cenário internacional. Segundo Amorim, isso fica evidente quando se analisa as vitórias eleitorais do Brasil para o comando da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) com José Graziano (ex-ministro de Combate à Fome), em 2011, e da Organização Mundial do Comércio (OMC) com Roberto Azêvedo, em 2013. “Isso é uma proeza rara, nem grandes potências conseguem vencer duas eleições tão importantes tão próximas assim”, analisou.

Além das cinco embaixadas citadas, Araújo avalia o encerramento de duas na África Ocidental: Monróvia (Libéria) e Freetown (Serra Leoa). Nos dois casos, não há funcionários, mas ainda não há um fechamento definitivo. Questionado se poderia haver uma expansão desses fechamentos para outros países africanos, Fontes não descartou, mas considerou que o Itamaraty pode sofrer maiores pressões: “Isso pode ou não ir para África, porque as Áfricas são estratégicas, principalmente na área agrícola, da pecuária, do agronegócio. Esse movimento afetaria diretamente grupos com forte representação no Congresso, que não aceitariam”.

Celso Amorim também destacou que as embaixadas podem ser fechadas agora, mas é possível que haja a necessidade de reabertura no futuro. “Houve embaixadas que o Fernando Henrique Cardoso fechou que eu tive que reabrir, às vezes não no mesmo local, mas próximo”, comentou.


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