terça-feira, 27 out 2020
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Haitianos pedem indenização da ONU por estupros na época em que general Heleno comandava forças de paz

A organização Plataforma Haitiana de Desenvolvimento Alternativo publicou documento no qual exige que a entidade global se responsabilize pela violência contra as mulheres, e também por trazer surto de cólera ao país

Diversas organizações sociais do Haiti, reunidas na Plataforma Haitiana de Desenvolvimento Alternativo, divulgaram um documento nesta sexta-feira (9), pelo qual exigem que a ONU (Organização das Nações Unidas) se responsabilize pelos mais de 3 mil casos de estupros (cerca de 300 deles envolvendo crianças) registrados no país durante a presença da MINUSTAH (Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti), entre os anos de 2004 e 2017.

O documento também acusa as missões de paz da ONU de introduzir o surto de cólera no país, naquele mesmo período, através de soldados de países sul-americanos (incluindo o Brasil), que formaram parte daquelas missões. Se estima que mais de um milhão de pessoas sofreram com a doença durante o período, e mais de 10 mil delas morreram.

As organizações pedem uma indenização da ONU às famílias afetadas, e um reconhecimento formal por parte da entidade de sua responsabilidade nos acontecimentos citados.

Entre outubro de 2004 e setembro de 2005, a Missão da ONU no Haiti foi comandada pelo então general Augusto Heleno, hoje na reserva, e exercendo o cargo de ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional do governo de Jair Bolsonaro.

Entre as polêmicas envolvendo a passagem de Heleno pelo Haiti está a o fato de que liderou uma operação chamada “Punho de Ferro”, na qual soldados teriam entrado atirando indiscriminadamente no bairro de Cité Soleil, em Porto Príncipe, o que terminou com a morte de ao menos 70 pessoas, incluindo mulheres e crianças – embora o relatório oficial sobre a operação fale em apenas 6 falecidos, contrastando com uma investigação jornalística da agência de notícias Reuters, baseada em relatórios da ONU e cabos diplomáticos dos Estados Unidos revelados pelo WikiLeaks, que concordam com a cifra de vítimas acima de 70, e que consideraram o evento como um “massacre”.

Na época, em audiência na Câmara dos Deputados, o general Heleno justificou a ação na favela haitiana dizendo que “não tenho dúvida que diante da atitude das gangues de utilizarem mulheres e crianças como escudos para se protegerem, podem ter acontecido efeitos colaterais (morte de civis). Mas se aconteceram, foram mínimos”.

Victor Farinelli
Victor Farinelli
Jornalista formado pela Universidade Católica de Santos, há 15 anos é correspondente na Argentina (2004 e 2005) e no Chile (desde 2006).