Ídolo de Bolsonaro, Pinochet montou esquema de tráfico de cocaína nas FFAA do Chile

O ditador chileno montou um esquema de tráfico de drogas usando aviões da Força Aérea Chilena que distribuíam a droga na Europa (através das embaixadas do país em Estocolmo e Madri) e nos Estados Unidos, e chegou a desenvolver seu próprio produto para lucrar nesse mercado: a "coca negra".

Avião da Força Aérea transportando cocaína pode ser uma novidade no Brasil, onde o mito de que “os militares são incorruptíveis” ainda está vigente, mas no Chile isso já foi escândalo há exatos 20 anos, e envolveu um dos ídolos políticos de Jair Bolsonaro: o ditador chileno Augusto Pinochet (1973-1990).

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A série de reportagens realizada pelo prestigiado jornalista investigativo irlandês Hugh O’Shaughnessy, publicada entre 1999 e 2000, pelo jornal britânico The Observer, relatou como a ditadura chilena montou um esquema de envios massivos de cocaína à Europa e aos Estados Unidos, através da estrutura das Forças Armadas e dos seus serviços secretos de repressão (a DINA e a CNI, que foram como o DOPS e o DOI-CODI do pinochetismo).

Segundo um dos artigos de O’Shaughnessy, através desse esquema, e somente durante os anos de 1986 y 1987, o Chile enviou 12 toneladas de droga, pelos quais recebeu um valor não precisado, mas que seria de muitos milhões de dólares. “Não há dúvidas de que Pinochet, cujo poder durante a ditadura foi absoluto, participou do esquema de tráfico”, afirmou o periódico britânico, que inclusive lembrou uma das mais célebres frases do ditador: “neste país, não se move nem uma folha sem que eu saiba”.

Em sua reportagem, O’Shaughnessy afirma que trabalhou no caso durante cerca de um ano, e comprovou que o esquema de tráfico de drogas rendeu enormes benefícios pessoais não só a membros do alto comando das Forças Armadas do Chile como à própria família do ditador Pinochet: ele e sua esposa, Lucía Hiriart, tinham uma conta no banco Riggs Bank com mais de 1,1 milhão de dólares, algo que não combinava com seus salários como comandante-chefe do Exército chileno (cargo que seguiu ocupando durante dez anos, depois do fim da ditadura) que juntos chegavam a um total de 16 mil dólares anuais. O caso está sendo investigado até hoje, já que a viúva ainda está viva, e porque os cinco filhos do casal também estão envolvidos, como titulares de contas fantasmas em bancos do exterior.

A reportagem também conta que os mesmos aviões da FACh (Força Aérea Chilena) que levavam a droga ao Velho Continente – destinada às embaixadas chilenas em Estocolmo e Madri, que depois faziam a distribuição a outros destinos – aproveitavam para fazer tráfico de armas ao Iraque, em meados da Década de 1980, e à Croácia, na década seguinte.

Coca Negra

Outro aspecto curioso do caso revelado pelo The Observer há 20 anos, foi o fato de que o regime chileno chegou a desenvolver um produto especial para lucrar com o mercado de drogas, que chamavam de “coca negra”, uma mescla regular de cocaína base ou cloridrato de cocaína com outras sustâncias, que visava camuflar sua aparência (seu apelido era por isso, realmente tinha uma cor mais escura, similar ao carvão, segundo a matéria) e evitar produzir odor que pudesse ser detectado por cães farejadores.

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Vale destacar que o responsável por produzir a “coca negra” era o químico Eugenio Berríos, o mesmo que é apontado como o criador do produto usado no envenenamento de dois ex-presidentes durante a Operação Condor: o chileno Eduardo Frei Montalva (antecessor de Salvador Allende), em 1982, e o brasileiro João Goulart, em 1976. Também é suspeito de ser parte da trama de um possível assassinato do poeta Pablo Neruda, cuja versão inicial de que havia falecido por câncer vem sendo contestada nos últimos anos – ele faleceu no dia 23 de setembro de 1973, duas semanas depois do golpe militar, em estranhas circunstâncias, e na mesma clínica onde foi assassinado o ex-presidente Frei Montalva. A Revista Fórum foi a primeira a noticiar as investigações do caso no Brasil, em 2012.

O próprio Berríos seria assassinado em 1995, quando estava no Uruguai, num caso que é considerado uma queima de arquivo realizada por militares, quando surgiram as primeiras investigações sobre a Operação Condor em países como Chile e Argentina.

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Victor Farinelli

Jornalista formado pela Universidade Católica de Santos, há 15 anos é correspondente na Argentina (2004 e 2005) e no Chile (desde 2006).

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