Israel: Benjamin Netanyahu luta para sobreviver politicamente

Netanyahu tem sido bem-sucedido em se apresentar como um líder insubstituível, e vai fazendo tudo que seja possível para manter sua cadeira - mas, o resultado da última eleição pode ser a ante-sala do possível fim de sua Era

Israel parte para sua terceira eleição em menos de um ano. Após duas eleições para o parlamento israelense (abril e setembro de 2019), os israelenses devem votar no próximo dia 2 de março de 2020. Mas, por quê isso está acontecendo? Porque Netanyahu falhou ao tentar formar uma nova coalizão para governar o país.

Na eleição de abril, na tentativa de formar uma maioria com pequenos partidos direitistas e religiosos, alguns criados como dissidentes do Likud – partido do premiê, não obteve sucesso. Na eleição de setembro, o cenário se repetiu em uma situação ainda pior, já que o partido de centro-esquerda (Azul e Branco), de Benny Gantz, ganhou a eleição por uma pequena margem e rejeitou formar governo com um premiê indiciado criminalmente.

Netanyahu foi indiciado em novembro pelo procurador-geral da república, Avichai Mandelblit, por três casos de corrupção, dentre os quais é acusado de fraude, propina e quebra de confiança. O chefe de governo por sua vez, argumenta que sofre uma tentativa de golpe.

Nessa semana, Bibi – como é popularmente conhecido, foi reeleito como líder do seu partido de centro-direita, Likud, com mais de 70% dos votos em uma eleição interna que contou com mais de 110 mil votantes. Nessa primária, ele enfrentou seu ex-ministro da Educação, Gideon Saar, considerado mais à direita, que não tocou na temática da acusações, mas que prometia estabilidade ao país.

Apesar da vitória expressiva na luta interna de seu partido, Netanyahu ainda luta para sobreviver politicamente. Durante essa semana, estará trabalhando para tentar garantir sua impopular imunidade, informam jornais israelenses. Para isso, ele precisa da maioria dos deputados e de total apoio de seu partido e rivais na legenda – algo aparentemente improvável. No menos, ele precisará da decisão favorável da Suprema Corte do país, sobre sua condição de elegibilidade para próxima eleição, uma vez que está indiciado formalmente.

Diferente da narrativa da mídia tradicional, o público parece dividido entre a razão e a popularidade sobre primeiro-ministro, eleito pela primeira vez há 23 anos e agora desde 2009, uma década inteira no poder.

Netanyahu tem sido bem-sucedido em se apresentar como um líder insubstituível, e vai fazendo tudo que seja possível para manter sua cadeira – mas, o resultado da última eleição pode ser a ante-sala do possível fim de sua Era.

No passado recente, outro premiê israelense, aphid Olmert, renunciou ao cargo, foi julgado e preso. Definitivamente, é o que mais teme hoje Netanyahu.

O que poderia ser diferente agora? Segundo pesquisas de opinião, se ele manter a imunidade e for considerado apto a concorrer a uma nova eleição, é bem provável que o impasse continue.

A nova aliança recém-formada, Kahol Lavan (Azul e Branco), de centro-esquerda, liderada pelo antigo chefe das Forças de Defesa Israelenses, Benny Gantz, que reúne dissidentes do Meretz (Social-democracia) e o histórico Partido Trabalhista, podem até ganhar a eleição como em setembro passado, mas dificilmente obterão a maioria absoluta ou o apoio de 61 deputados para formação de um novo governo.

Muito além do impasse eleitoral, as questões mais importantes da política israelense continuam sendo evidentes, como a relação com seus vizinhos Líbano, Síria, o Irã, a questão palestina. Netanyahu tradicionalmente visto com um líder de centro-direita “moderno”, vem se alinhando nos últimos anos com líderes de extrema-direita, vem promovendo novos assentamentos judaicos em regiões palestinas e agora promete anexar e diminuir a influência da Autoridade Palestina em terras históricas e protegidas por acordos internacionais na perspectiva da saída de “Dois Estados”.

Usando a política do medo e a deslegitimação de todos adversários através de teorias da conspiração e o controle dos meios de comunicações, parece que Netanyahu descobriu a estrada para sua longa permanência como líder em um Estado oficialmente democrático. Só não sabemos até quando…

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Vinicius Sartorato

Jornalista e sociólogo. Mestre em Políticas de Trabalho e Globalização pela Universidade de Kassel (Alemanha).