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31 de Maio de 2019, 19h58

Israel: O fim da Era Netanyahu se aproxima

Um mês após a eleição do parlamento, Israel terá uma novo pleito em 17 de setembro; diferente da narrativa da mídia tradicional, a população está cansada do primeiro-ministro, eleito pela primeira vez há 23 anos e agora desde 2009, uma década inteira

Reprodução

Por Nitzan Menagem* / Tradução de Vinicius Sartorato**

Um mês após a eleição do 21° Knesset (parlamento israelense), Israel terá uma nova eleição em 17 de setembro. Isso acontece após Netanyahu falhar ao tentar formar uma nova coalizão para governar com pequenos partidos direitistas, alguns criados como dissidentes do Likkud – partido do premiê.

Diferente da narrativa da mídia tradicional, a população está cansada do primeiro-ministro, eleito pela primeira vez há 23 anos e agora desde 2009, uma década inteira.

Netanyahu tem sido bem-sucedido em se apresentar como um líder insubstituível, e vai fazendo tudo que é possível para manter sua cadeira – inclusive, colocando em perigo a democracia israelense.

A razão para falha na formação da coalizão, ou pelo menos o argumento do mandatário, é a negativa do partido de extrema-direita Yisrael Beiteinu, liderado por Avigdor Lieberman, desapontado com o resultado de 5 cadeiras (de um total de 120) no atual parlamento, desejosos por reconquistar a confiança dos eleitores clássicos: a população de origem russa e direitistas laicos.

De acordo com a lei eleitoral israelense, Netanyahu deveria comunicar o presidente da República para que este indicasse outro candidato para tentar formar a coalizão. Inclusive, em uma manobra – um ato nunca visto -Netanyahu forçou seus aliados atuais a dispensar o recém-eleito parlamento rapidamente e anunciar uma nova eleição em setembro.

O que poderia ser diferente agora? Bem, não muito. Netanyahu quer que o seu partido, Likkud, saia fortalecido da nova eleição (hoje possui 26,46%, 35 deputados), tentando “engolir” outros pequenos partidos de direita. O partido de Lieberman poderia conquistar alguns votos adicionais, mas não é esperado muito. Então, como podemos ver, trata-se de mais do mesmo.

Existe um comentário sobre uma nova aliança recém-formada, Kahol Lavan (Azul e Branco), liderada pelo antigo chefe das Forças de Defesa Israelenses, Benny Gantz, e o antigo presidente do Yair Lapid, ex-ministro de Finanças, Yair Lapid.

A nova aliança política, formada um pouco antes da eleição de abril, conseguiu conquistar o mesmo número de votos que o Likkud de “Bibi”, mas através da cooptação de possíveis aliados da coalizão de esquerda: o Meretz (Social-democracia) e o histórico Partido Trabalhista, que teve sua pior marca histórica com 6 deputados (depois de 24 em 2015).

Mais do que nunca, os Trabalhistas e o Meretz devem formular uma estratégia para sobreviver à próxima eleição, que coloca em risco suas existências no parlamento, sendo que precisam ultrapassar a cláusula de barreira de 3,25% (4 parlamentares, que o Meretz tem atualmente).

Com dificuldades para renovar a campanha, as decisões devem ser tomadas rapidamente: enquanto a ala à direita do Partido Trabalhista vem se alinhando a idéia de terceira via “eclética, nem de direita nem de esquerda”, em uma aliança com o novo Kahlo Lavan, a sobrevivência da social-democracia requer uma nova aliança de esquerda dos Trabalhistas com o Meretz.

Enquanto a coalizão Árabe-Judaica do Hadash (da qual participa o Partido Comunista) tenta reunir os poderes dos 3 pequenos partidos árabes em uma só lista eleitoral, resumem outra tentativa para evitar o desaparecimento desse setor de oposição em Israel nas próximas eleições.

A crise da democracia israelense, mas especialmente sua social-democracia, não parece ser diferente de outros casos mundo afora. Se nada acontecer de diferente, Netanyahu poderá ser mais um exemplo de líderes atuais que colocam em risco suas democracias, como Jair Bolsonaro no Brasil, Viktor Orbán na Hungria e mesmo Donald Trump nos EUA.

Por esse caminho, usando a ignorância de seus cidadãos sobre política internacional, Netanyahu protege líderes fascistas do mundo justificando e fortalecendo laços diplomáticos e econômicos sob a alegação de que são amigos dos judeus.

Usando a política do medo e a deslegitimação da esquerda através de teorias da conspiração e o controle dos meios de comunicações, parece que Netanyahu descobriu a estrada para sua longa permanência como líder em um Estado oficialmente democrático.

Contudo, recentes episódios colocam Netanyahu em uma precária situação: ao lado de sérias investigações de corrupção acontecendo, há um público cansado dele enquanto prepara-se para outra corrida eleitoral. A próxima eleição de setembro, seja qual seja o resultado, parece que marcará o fim Era Netanyahu.

 

*Nitzan Menagem é uma cientista política israelense formada na Universidade Judaica de Jerusalem. Residente em Berlim, é uma educadora popular e membro do Meretz (Partido Social-Democrata)

 

** Vinicius Sartorato (@vinisartorato) é jornalista e sociólogo. Mestre em Políticas de Trabalho e Globalização pela Universidade de Kassel (Alemanha)


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