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19 de novembro de 2019, 17h42

Lo Hermida: como a periferia de Santiago vive a repressão diária do governo de Sebastián Piñera

Em um bairro conhecido pela luta pelo direito à moradia, a polícia reprime sem limites: ataca pela noite, dispara a queima-roupa e joga bombas de gás lacrimogêneo dentro das casas

Foto: Victor Farinelli

Do Chile, especial para a Fórum

O turista brasileiro que vai a Santiago está acostumado a visitar bairros como Las Condes, Providencia e até o centro histórico da cidade. Lugares que corroboram a fama do Chile de “Suíça da América Latina”, segundo as palavras do “chicago boy brasileiro”, nosso ministro da Economia, Paulo Guedes.

Porém, nesta matéria, você conhecerá um outro lugar, que está muito mais próximo da realidade da maioria dos chilenos. Vamos viajar até o bairro de Lo Hermida, na região Leste da Grande Santiago, onde, como diz uma famosa canção popular chilena (chamada “Largo Tour”), “nós veremos a vida tal como ela é”.

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A repressão que se vê nas grandes manifestações no centro da capital chilena não são o comportamento usual das forças policiais e militares que atuam nessas zonas. Em tempos de normalidade, a abordagem policial nesses setores da cidade costuma respeitar os protocolos. Não é o que acontece em Lo Hermida, onde, além disso, o conflito passa por necessidades mais concretas e imediatas da população local, como a luta por moradia digna.

Os conflitos entre moradores e a polícia são algo um tanto comum no bairro, mas se intensificaram a partir do dia 11 de novembro, quando um grupo de manifestantes invadiu o terreno do vinhedo Cousiño Macul, localizado no coração do bairro, em nome de um movimento local por moradia digna. O bairro de Lo Hermida – que faz parte da comuna de Peñalolén, e portanto tem uma administração independente da do centro de Santiago – é resultado de uma ocupação histórica da periferia de Santiago e por isso mesmo sua própria existência se confunde com a história dessa luta habitacional na cidade.

Após dois dias de ocupação do vinhedo, na quarta-feira (13), a polícia resolveu expulsar os manifestantes em uma violentíssima ofensiva que os seguiu bairro adentro, por onde muitos tentaram fugir. No calor da ofensiva, os policiais passaram a não medir a força, nem discriminar alvos. Entraram em batalhão pelas vielas do bairro, sem se preocupar se havia crianças ou idosos pelo caminho. Atiraram a queima-roupa, lançaram bombas de gás dentro das casas, invadiram residências e prenderam pessoas a esmo, inclusive muita gente que não tinha nada a ver com a mobilização no vinhedo.

Segundo a jornalista Daniela López, porta-voz da Junta Comunitária de Lo Hermida, “essa repressão tem o propósito de tentar impor o terror contra aqueles que se manifestam pelo direito à moradia, que é um tema grave por aqui. Na comuna Peñalolén há cerca de 18 mil pessoas necessitando de casa, e por isso essa luta é muito necessária”.

Daniela enfatiza a necessidade da luta pela moradia para mostrar que a repressão também visa invisibilizar o debate pelo tema habitacional, e que essa narrativa conta com a ajuda de muitos meios de comunicação chilenos: “A imprensa daqui não ignora o que acontece no nosso bairro, mas tenta igualar o poder de fogo da polícia com o dos garotos daqui, que tentam reagir aos ataques da polícia com paus e pedras, tentando evitar que entrem no bairro. Não só é ridículo por comparar forças que não são equivalentes, como também porque essa lógica serve para dizer que tanto o repressor quanto o reprimido estão errados, e assim se estigmatiza a luta pela moradia como coisa de grupos violentos”.

Uma das pessoas feridas no ataque policial da quinta-feira (14) é Cristina López, estudante de turismo e irmã de Daniela. Ela conta que “estava com um amigo quando vi que eles entraram no bairro, e tentamos nos esconder. Um policial nos encontrou e nos disparou a queima-roupa, eu tomei um tiro nas costas e outros três nas pernas. Meu amigo depois tentou me proteger e também levou três tiros”. A bala de chumbinho que atingiu as costas de Cristina ainda não foi retirada, e está infectada. Ela aguarda horário de atenção no hospital da Universidade do Chile para fazer uma cirurgia e retirar a bala.

Foto: Daniela López

“A repressão aqui sempre é mais cruel porque eles (a polícia) têm todo um contexto que facilita a impunidade. Nas manifestações do Centro você tem câmeras de segurança, e também a imprensa internacional, mas aqui não tem nada disso, o policial que reprime aqui sabe que é a nossa palavra contra a deles, e a deles sempre vale mais, inclusive para justificar prisões de moradores que não fizeram nada”, conta Daniela López.

Números

Outra das líderes comunitárias de Lo Hermida que também atua na organização de como enfrentar a repressão policial é a estudante de direito Millaray Castillo. Ela é recentemente formada, e embora ainda precise finalizar alguns trâmites para poder atuar legalmente como advogada, já entrega assistência jurídica aos moradores que necessitam, e forma parte do Comitê de Direitos Humanos da comunidade.

Além de reforçar o relato de Daniella, Millaray entrega números que expõem o resultado de uma semana inteira de repressão diária no bairro: “Nós temos registrados 471 pessoas feridas, segundo um levantamento nosso feito pelos grupos de atenção de saúde que nós organizamos aqui no bairro, mas não é um número preciso, porque há pessoas que preferem ser atendidas em casa mesmo, com a ajuda de familiares”. A estudante recém-formada também diz que a maioria dos casos é de ferimentos por balinhas de chumbinho e pessoas que passaram mal devido ao efeito do gás lacrimogêneo.

Millaray também conta que além do gás atirado dentro das casas, a explosão de algumas dessas bombas lacrimogêneas também gerou focos de incêndio, que só não se transformaram em tragédias maiores devido à mobilização improvisada de vizinhos para conter as chamas.

Ela também denuncia que “a polícia não só atacou as casas, como também os grupos de saúde, há muitos relatos de pessoas sobre policiais que viam um ponto médico e disparavam contra quem estava perto, ou jogava gases, afetando também o pessoal de saúde que tentava cuidar dos feridos”.

Outro problema relatado por Millaray é a pouca colaboração da polícia para dar informação a respeito das pessoas presas durante os operativos policiais. “Nós sabemos que são muitos os casos, mas não temos um número preciso a respeito disso porque a polícia não nos permitiu o acesso a essa informação”.

Ela conta que foi até o INDH (Instituto Nacional de Direitos Humanos do Chile) somente depois que a própria polícia disse a ela que só daria essa informação se o pedido contasse com o apoio da entidade. “O que é um absurdo, porque essa informação deveria ser de domínio público, qualquer cidadão tem direito de solicitar esses dados e é obrigação do servidor público entregá-los”, diz a estudante, e com razão, a lei chilena realmente lhes dá esse direito.

Foto: Assembleia Territorial de Lo Hermida

Observadores

A estudante diz que o INDH enviou uma missão de observadores de Direitos Humanos a Lo Hermida. Eles registraram oficialmente os casos reportados pela Assembleia Territorial. “O problema dessa e outras missões de direitos humanos é que eles enviam observadores durante o dia, e os ataques policiais costumam acontecer durante a noite, e nessa hora não temos a quem pedir ajuda, nem quem possa certificar os abusos que eles cometem”.

Millaray também conta que muitas vezes, quando os moradores pedem informações sobre pessoas presas, ou avisam que vão acionar organismos de direitos humanos, os policiais respondem os enganando. Em outras, a resposta é com ameaças: “Temos registro em vídeo de uma pessoa que foi pedir informações e um policial reagiu ouvindo com cara de indiferença, enquanto brincava com a trava de segurança do seu revólver na cara da pessoa”.

Foto: Assembleia Territorial de Lo Hermida

No final da tarde desta segunda-feira (18), os moradores de Lo Hermida realizaram mais uma manifestação para denunciar a violência policial no bairro, que contou com centenas de participantes.

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