Entrevista exclusiva com Lula
01 de maio de 2019, 19h11

Operación Libertad: Guaidó aposta tudo na revolta militar contra Maduro

Entenda o que está por trás da tentativa - por hora fracassada - de golpe da oposição contra o governo de Nicolás Maduro, na Venezuela

Foto: Reprodução/Supuesto Negado

Por Fabio Zuluaga, do Supuesto Negado 

Os venezuelanos acordaram nesta terça-feira (30) com notícias de uma revolta militar encabeçada por Juan Guaidó, presidente da Assembleia Nacional, e Leopoldo López, líder e fundador do partido Voluntad Popular que, até a noite de 29 de abril, encontrava-se em prisão domiciliar.

Guaidó publicou um vídeo em que, rodeado de efetivos militares fortemente armados, fazia um chamado à Força Armada a rebelar-se contra Nicolás Maduro e à população para sair às ruas.

Embora, a princípio, acreditou-se que Guaidó e López tinham tomado o controle da base militar de La Carlota, depois ficou claro que eles estavam com sua escolta militar sob a ponte da Distribuidora Altamira, ou seja, em frente à base, mas não dentro dela.

Depois, a rede colombiana Caracol publicou no Twitter um vídeo em que se observava o que parecia uma troca de tiros entre os militares revoltosos e um grupo de motoristas. Também circulavam notícias de que o presidente da Cavim, empresa estatal de fabricação de munições, tinha sido capturado por forças leais a Guaidó.

O ministro da Defesa, Vladimir Padrino, chamou os dissidentes de “covardes” e disse que o governo responderia à revolta. Até agora, não há registros de que algum comando de alto escalão militar se tinha somado à rebelião.

“Nervos de Aço! Conversei com os comandantes de todos os REDI e ZODI do país, que manifestaram total lealdade ao povo, à Constituição e à pátria. Eu chamo a mobilização popular máxima para assegurar a vitória da paz. Venceremos!”, escreveu Maduro através da sua conta no Twitter.

Aventura

Leopoldo López é conhecido por suas ações que, segundo quem as vê, são ousadas ou irresponsáveis: no golpe do dia 11 de abril de 2002, ele esteve pessoalmente à frente da manifestação que se dirigia ao Palácio de Miraflores. Os protestos violentos de 2014, conhecidos como La Salida (A Saída), foram uma tentativa desesperada que acabou levando-o à prisão.

Guaidó também mostrou uma disposição similar. Estar sob a “proteção” do governo dos EUA tem contribuído para essa atitude ousada.

Normalmente, um presidente autoproclamado e um prisioneiro fugitivo pedindo uma revolta popular do pé de uma ponte seriam chamados de loucos, mesmo que, como Guaidó e López, tivessem uma forte escolta militar. Mas nas condições atuais da Venezuela, que combinam uma grave crise econômica, política e de serviços públicos, as consequências da ação são imprevisíveis. Embora nada tenha acontecido no passado imediato, é provável que Guaidó e López saibam disso e esperem que, em horas ou talvez dias, seu gesto comece a ter efeitos entre os militares e os civis.

Fraturas e rupturas

Estas são algumas das palavras repetidas com maior frequência pelos analistas políticos, nos últimos meses, em que diferentes setores do chavismo se distanciaram do governo de Nicolás Maduro: Rafael Ramírez, ex-diretor da PDVSA, general Carlos Rotondaro, ex-presidente do Seguro Social, e Hugo Carvajal, chefe da inteligência militar de Hugo Chávez, que mais tarde foi capturado na Espanha e pode ser deportado para os EUA.

Todos fizeram fortes ataques contra Nicolás Maduro, desconhecendo-o como presidente.

Essas diferenças e rupturas são uma parte importante da estratégia de Trump para a Venezuela que, desde que começou a se pronunciar sobre a questão venezuelana, chamou os militares para destituir Maduro. O objeto das severas sanções econômicas que estão dando o golpe final na já debilitada economia venezuelana, segundo analistas, não é só enfraquecer Maduro, mas acelerar as rupturas no bloco dominante.

Até agora, não tem tido muito sucesso.

Operación Libertad (Operação liberdade)

A chamada “Unidade Cívico-Militar” chavista tem sido mais resistente do que a oposição venezuelana e o governo dos EUA pensavam: aparentemente, o objetivo da entrada forçada da “ajuda humanitária” no dia 23 de fevereiro era romper a cadeia de comando, promovendo o desconhecimento da autoridade de Nicolás Maduro.

Mas esse plano falhou.

Mesmo analistas próximos à oposição apontaram que as ameaças de invasão e ataque militar contra a Venezuela, por membros do governo de Trump, unificaram os militares venezuelanos e fizeram que as dissidências se dissipassem.

Mais tarde, houve uma mudança de tática em que Guaidó disse estar “construindo capacidades” dentro da Venezuela para “cessar a usurpação”, isto é, derrubar Maduro. Então, ele começou uma turnê nacional para organizar a oposição.

O objetivo dessa organização era iniciar a chamada “Operación Libertad” (Operação Liberdade), que consistirá em boicotes e mobilizações de massa contra o governo. A operação incluiu uma paralisação dos funcionários públicos que, até agora, não ocorreu.

No entanto, parece que não se trata de promover uma “Primavera venezuelana” ou uma “Rebelião de cores”. A falta de reconhecimento que os militares teriam em Maduro e seu papel em alcançar uma “transição” tem sido constantemente apontados por Guaidó e pelo governo de Trump. O objetivo da Operação Liberdade parece ser criar as condições para um levante militar.

A Operação Liberdade tinha o Primeiro de Maio como a data de início, mas Guaidó e López, surpreendentemente, se anteciparam com seu pronunciamento na manhã de ontem. Em resposta, o PSUV convocou seus militantes a se concentrarem nos arredores de Miraflores.

La Chispa (A Faísca)

A tentativa surpreendeu aos venezuelanos, que estavam mais preocupados se o aumento salarial, que elevaria o salário mínimo de 18.000 para 40.000 bolívares, provocaria uma nova onda de inflação. Nas últimas semanas, a inflação desacelerou, mas o poder de compra continua muito limitado.

Embora os seguidores de Guaidó e López tenham assegurado que a queda de Maduro deveria acontecer ontem, na realidade é um teste de resistência para ver se, com o passar das horas, militares ou civis se juntassem ao chamado. É provável que os rebeldes contem com que a tentativa do governo de capturá-los seja “a faísca que acenderá a pradaria”: o encarceramento de Guaidó pode ter consequências não apenas a nível nacional, senão internacionalmente.

Em qualquer caso, a situação é incerta e nenhum cenário, desde a insurreição terminar em um fiasco até uma guerra civil, estão descartados neste momento.


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