Pedro Castillo só perde se houver “resultado milagroso” para Keiko Fujimori, diz dirigente sindical peruano

"Para a virada ocorrer, Keiko precisaria de 100% dos votos impugnados", afirma Rolando Torres Prieto, da CTAP

É praticamente impossível Pedro Castillo ser superado por Keiko Fujimori no Peru, mesmo se a filha do ex-ditador Alberto Fujimori conseguir reverter as atas que foram impugnadas no país. Essa avaliação é feita por jornalistas peruanos e pelo secretário-geral da Central Autônoma de Trabalhadores do Peru (CATP), Rolando Alfonso Torres Prieto.

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De acordo com a contagem oficial, às 16h25 (Horário de Brasília) desta quarta-feira (9), com 99.82% das atas processadas e 98,488% dos votos apurados, Castillo tem 50.192%, enquanto Fujimori chega a 49.808%. A vantagem do candidato socialista do Peru Livre é de 67,1 mil votos.

Levando em conta o que resta ser processado (156 atas), é impossível uma virada durante a apuração, o que faz a filha do ex-ditador Alberto Fujimori recorrer aos tribunais. Em uma ofensiva jurídica, a candidata do Força Popular vai buscar resgatar atas que foram separadas pelo órgão eleitoral e tentar anular votos conquistados por Castillo.

Torres Prieto disse à Fórum que Castillo vence mesmo com a contagem das urnas impugnadas. “É impossível para Keiko alcançar Pedro Castillo, uma vez que o grau de abstenção é alto. Para isso ocorrer, ela deveria obter 100% dos votos que faltam ser contabilizados. Com relação às atas contestados, o raciocínio é o mesmo, já que, proporcionalmente, os votos não seriam suficientes para superá-lo. Um resultado milagroso deveria ocorrer para que todos os votos fossem a favor da Keiko”, afirmou.

Confira a entrevista com o dirigente sindical:

Com 99,9% das atas processadas, a vitória de Pedro Castillo parece irreversível, mas Keiko Fujimori pretende atrasar o resultado com uma reivindicação das urnas impugnadas. Com essas atas, acredita que seria possível uma mudança de cenário?

É impossível para Keiko alcançar Pedro Castillo, uma vez que o grau de abstenção é alto. Para uma virada ocorrer, ela deveria obter 100% dos votos que faltam ser contabilizados. Com relação às atas contestados, o raciocínio é o mesmo, já que, proporcionalmente, os votos não seriam suficientes para superá-lo. Um resultado milagroso deveria ocorrer para que todos os votos fossem a favor da Keiko. Vários jornalistas, incluindo Álvarez Rodrich, já aceitam o triunfo de Castillo.

Outra estratégia de Keiko é questionar os votos já contabilizados para Pedro Castillo. Isso pode acontecer? Ela tem apoio nessa empreitada?

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Nosso país tem um alto grau de corrupção e os grupos de poder têm muito a perder. Neste momento, estão movimentando todo o seu aparato para tentar influenciar as decisões que o Jurado Eleitoral Peruano (JEP) toma. Por isso, as mobilizações e vigílias são importantes.

Acredita que essa desestabilização promovida por Keiko pode mobilizar as Forças Armadas?

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O apoio ou intervenção das Forças Armadas é uma estratégia que certamente está se tentando implementar por parte dos grupos de poder. Por isso, é necessário que a vigília e as mobilizações populares sejam ordenadas e pacíficas. Pedro Castillo não tem o respaldo das Forças Armadas. Em sua estrutura política não há nenhum membro que tenha pertencido a essas instituições. Mas imagino que as alianças feitas no processo eleitoral sirvam para mantê-los neutros.

As pessoas saíram às ruas em algumas regiões para comemorar a vitória de Castillo. Você acha que a estratégia de Keiko pode gerar conflitos civis?

O povo conhece os métodos do partido de Keiko. Há evidências de empresários induzindo voto a favor da Keiko e expressando desconfiança. Esperamos que as autoridades eleitorais respeitem as decisões do povo.

É hora de vigilância, então, certo? Mais alguma coisa que você deseja adicionar?

O resultado destas eleições é a resposta aos abusos, à prepotência e à corrupção que se apossaram de diversos governos recentes, que preferiram aplicar políticas antiquadas que só trouxeram miséria, inequidade e desigualdade, onde a classe empresarial tem se aproveitado e abusado de seu poder econômico a ponto de assumir alguns ministérios para que nada mude.

Você acha que um governo Castillo pode promover mudanças significativas?

Essa é a esperança do povo e isso ele deve fazer. Só de regular a evasão de divisas e evitar o roubo dos 8 bilhões de dólares que se perdem para corrupção, já haverá mudança, porque esses valores podem ser melhor distribuídos. Acreditamos sim, os trabalhadores e cidadãos comuns, que o governo de Castillo significa o início de mudanças significativas para o país

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Lucas Rocha

Lucas Rocha é formado em jornalismo pela Escola de Comunicação da UFRJ e cursa mestrado em Políticas Públicas na FLACSO Brasil. Carioca, apaixonado por carnaval e pela América Latina, é repórter da sucursal do Rio de Janeiro da Revista Fórum e apresentador do programa Fórum Global

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