domingo, 27 set 2020
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Plano dos EUA não consegue deter o Estado Islâmico

A esperança de que a estratégia de Barack Obama, alcançasse uma rápida vitória contra o grupo extremista Estado Islâmico se esfumaçou em meio ao crescente temor de que a ofensiva aérea encabeçada por Washington pouco tenha reduzido o ritmo do avanço desse movimento armado na Síria e no Iraque

Por Jim Lobe, da IPS/Envolverde

Inicialmente, os bombardeios aéreos, combinados com ataques terrestres dos combatentes peshmergas curdos, apoiados pelo Irã, e as forças especiais iraquianas conseguiram repelir o Estado Islâmico de suas posições próximas a Erbil, capital do Curdistão iraquiano, e da represa de Mosul, a segunda maior cidade do Iraque.

Também recuperaram os distritos de Rabia e Daquq no norte iraquiano, mas até o dia 6 o poder aéreo dos Estados Unidos não havia conseguido evitar que o Estado Islâmico tomasse a maior parte da cidade síria de Kobani, um enclave curdo na fronteira com a Turquia. Ainda mais preocupante é o avanço do EI no chamado triângulo sunita, no extremo oriental da província de Al Anbar, no noroeste do Iraque.

O Comando Central dos Estados Unidos anunciou no dia 5 que enviou helicópteros equipados com artilharia para a batalha contra o Estado Islâmico no oeste de Bagdá, no que implica uma considerável intensificação da participação direta de Washington na luta.

“O uso de helicópteros com artilharia em operações de combate significa que essas forças estão em combate”, afirmou Jeffrey White, analista de assuntos militares no Instituto de Washington para a Política do Oriente Próximo (Winep) à rede de jornais CcClatchy Newspapers.

O uso de aeronaves mais lentas e de voo baixo apresenta um risco muito maior de que as forças norte-americanas sofram baixas, bem como o reconhecimento implícito de que os ataques aéreos até o momento não conseguiram impedir que as forças do Estado Islâmico lançassem operações ofensivas, acrescentou White.

Aparentemente, as forças do Estado Islâmico também tomaram o controle de Abu Ghraib, o subúrbio de Bagdá que ficou tristemente famoso pelos abusos que militares norte-americanos cometeram contra presos iraquianos na prisão de mesmo nome durante a ocupação de Washington.

Vários comentaristas destacaram que o aeroporto internacional de Bagdá, que abriga um centro de comando e aviões dos Estados Unidos, incluídos helicópteros de combate, agora está ao alcance da artilharia e dos mísseis que o Estado Islâmico dispara da cidade. O grupo extremista capturou essas armas em bases militares que as forças iraquianas abandonaram no começo do verão boreal.

Nos últimos dias, as forças do Estado Islâmico tomaram duas cidades estratégicas, Kubaisa e Hit, a oeste de Ramadi, capital de Al Anbar, com a aparente intenção de se consolidar na província e obter o controle de um oleoduto-chave. Seus avanços também isolaram várias bases militares iraquianas.

Obama prometeu repetidamente que não enviaria tropas terrestres para combater na Síria ou no Iraque desde que anunciou, no dia 10 de setembro, o envio de aproximadamente 1.600 instrutores e assessores norte-americanos a esse país diante da ofensiva do Estado Islâmico. Mas sofre uma pressão constante para que reconsidere sua posição, por parte de legisladores do opositor Partido Republicano e inclusive de ex-funcionários do Pentágono, entre eles Robert Gates.

“A realidade é que não poderá haver êxito contra o Estado Islâmico estritamente desde o ar, ou estritamente em função das forças iraquianas, ou dos peshmergas, ou das tribos sunitas que atuam por conta própria”, afirmou Gates no mês passado. “Assim, serão necessárias botas no terreno se for para a estratégia ter alguma esperança de êxito”, acrescentou. “Ao continuar repetindo que Washington não enviará forças terrestres, o presidente, de fato, se mete em uma armadilha”, ressaltou.

Inclusive o chefe do Estado Maior Conjunto dos Estados Unidos, general Martin Dempsey, sugeriu que Washington poderia necessitar de forças especiais no terreno no Iraque, ao menos para atuar como observadores para que os aviões norte-americanos e aliados possam atacar os alvos do Estado Islâmico com maior precisão.

Alguns conservadores pedem o envio de até 25 mil forças especiais dos Estados Unidos para o Iraque e a Síria, mas as últimas pesquisas revelam que o público, inclusive muitos dos que se dizem republicanos, tende a concordar com Obama em sua oposição ao combate terrestre de norte-americanos, embora apoiem medidas mais enérgicas contra o Estado Islâmico.

Tem-se a impressão de que a estratégia de Obama consiste em reduzir as forças militares do Estado Islãmico, especialmente as armas pesadas e os veículos de transporte que capturou dos exércitos da Síria e do Iraque, mediante uma guerra aérea encabeçada pelos Estados Unidos com a participação de países muçulmanos sunitas, em particular a Arábia Saudita e outros membros do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG).

Essa guerra também inclui os aliados da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) que estiverem dispostos, embora nenhum ainda tenha aceitado participar das operações contra os objetivos do EI na Síria.

Os aviões de guerra dos Estados Unidos atacaram as refinarias de petróleo que o Estado Islâmico utiliza na Síria para tirar do grupo extremista uma fonte estratégica de renda, no que faz parte de uma guerra econômica que inclui a pressão sem precedentes sobre os governos do CCG para que reprimam seus cidadãos e organizações beneficentes que apoiam o Estado Islâmico e o jihadista Jabhat al Nusra, grupo próximo à rede Al Qaeda na Síria.

Washington pressiona o governo xiita do primeiro-ministro iraquiano, Haider al Abadi, para que compartilhe o poder com a comunidade sunita, em grande parte mediante o treinamento de aproximadamente dez mil guardas nacionais recrutados das principais tribos para enfrentar o Estado Islâmico em Al Anbar e outros lugares.

Essa parte da estratégia segue em processo, já que Abadi ainda não conseguiu obter o consenso para ocupar os ministérios de Defesa e Interior, e a maioria dos líderes sunitas continua duvidando das intenções do primeiro-ministro iraquiano.

Embora tudo ocorra segundo o planejado, incluída a reconstrução do exército iraquiano, muito reduzido após a ofensiva do Estado Islâmico, o comandante norte-americano escolhido para coordenar a coalizão internacional, general John Allen, alertou no começo deste mês que as forças iraquianas demorarão pelo menos um ano para poderem enfrentar o Estado Islâmico em Mosul, cidade conquistada em junho.

Também será necessário um ano para capacitar cerca de cinco mil recrutas sírios “moderados”, na Arábia Saudita e na Georgia, para a guerra contra o Estado Islâmico, o Jabhat al Nusra e o governo sírio de Bashar al Assad, segundo funcionários em Washington. Estes admitem a improbabilidade de que essa força, por si só, incline substancialmente o campo de batalha em um sentido ou outro, sem o apoio de bombardeios aéreos que a defendam.

Foto de Capa: Comando Central da Força Aérea dos Estados Unidos

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