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18 de outubro de 2019, 20h00

Presidente da Fundação Pepe Mujica acredita em vitória da esquerda em Argentina, Uruguai e Bolívia; Evo é o mais difícil

O jornalista Fabián Restivo descarta qualquer comparação entre Alberto Fernández e Ciro Gomes, diz que Lula está "sequestrado" e conta que Bolsonaro virou meme na América Latina

Alberto Fernandez, Evo Morales e Daniel Martínez - Foto: Montagem

Neste mês de outubro, Argentina, Uruguai e Bolívia vão às urnas definir seu futuro. Enquanto o kirchnerismo parece ter já consolidado sua vitória entre os argentinos a duas semanas do pleito, incertezas marcam os outros dois países latin0-americanos.

Segundo o jornalista argentino Fabián Restivo, que atua na Bolívia há mais de 20 anos e preside a Fundação Pepe Mujica, a vitória “tripla” das esquerdas “é um desejo”, apesar da reeleição de Evo Morales ser uma missão mais complicada do que um novo êxito da Frente Ampla uruguaia e do peronismo. Restivo chegou ao país em 1997, para a produção do documentário “Adiós, comandante Che”, que mostra a busca pelos restos mortais do líder revolucionário Che Guevara.

Em entrevista à Fórum, Restivo ainda comenta sobre a conjuntura do Equador e os paralelos que são feitos com o Brasil. Na conversa, ele afirma que Lula foi “sequestrado” e conta que Bolsonaro virou meme na América Latina – citando o episódio da “preservação ambiental” por meio do cocô dia-sim, dia-não. “Não tem um ministro que você olhe e não queira ou rir ou se jogar da janela”, brincou.

O jornalista crê que o maior desafio de Alberto Fernández na presidência será a economia interna do país, que está estagnada. Ele ainda se irrita ao ser questionado sobre um possível paralelo entre Ciro Gomes e Fernández. “Quem faz essa comparação demonstra uma enorme ignorância política”, criticando o ex-ministro, que ele afirma “ter a infelicidade de conhecer”.

Na Bolívia, o primeiro turno acontece neste domingo (20), enquanto Argentina e Uruguai vão às urnas apenas no outro final de semana.

Confira a conversa:

Vitória nos três países

“Antes do que nada, é um desejo. Eu tive a desgraçada sorte de viver primeiro uma ditadura nos três países, depois um período democrático neoliberal muito forte. Daí, saiu o projeto de você ter em todos os nosso países governos progressistas. Os presidentes que nós já tivemos, Chávez, Lula, Kirchner, Correa, Mujica, Evo…  Aquilo deu uma virada importante na geopolítica. Nós enxergamos e depois comprovamos o feliz que as pessoas podem ser sob esses governos. O desejo é que aquilo volte. O país que tem mais claridade é a Argentina. A fórmula Alberto-Cristina está com mais de 20 pontos acima do Macri. No Uruguai, o Frente Ampla tem uma boa possibilidade de ganhar.

Dificuldades na Bolívia

Na Bolívia também há chance, mas quem tinha certeza que o Evo ia ganhar no primeiro turno, que seria o lógico porque era como se não tivessem sequestrado o Lula, já está duvidando. Houve uma operação muito grande dos EUA.  

Dos três, eu acho que o Evo é mais difícil, porque tem um problema do seu próprio folclore. Tanto o Evo quanto o vice-presidente, o Álvaro [Garcia Linera], não acreditam na comunicação, é uma coisa muito folclórica. Aqui na Bolívia está sem clima eleitoral nas ruas, quase que não houve campanha. Temos a direita apostando que as mentiras deles têm uma grande eficácia e tem o governo achando que tudo que ele faz o pessoal compreende. É uma guerra do senso comum contra a idiotice. É uma falta de leitura.

Oscar Wilde falou, certa vez, que a humanidade estava composta por 95% de imbecis e acho que ele tinha razão. A nossa guerra vai ser dura. Se tiver segundo turno, a possibilidade de derrota é muito grande. Lá por 1945, 46, um pensador argentino, Arturo Jauretche, falou que as pessoas “quando elas estão mal, elas votam bem, e quando elas estão bem, elas votam mal”. Quando a pessoa tem fome, ela vota pra comer, quando tem a barriga cheia, brinca com a democracia.

Brasil de Bolsonaro

Eu não acreditava que o idioma fosse um muro tão grande. A informação do Brasil não chega tanto aqui na Bolívia. Mas chega porque o Bolsonaro é inconteste, tem um nível de idiotice tão grande que você fica perplexo, e aquilo vira meme. O que vira meme, todo mundo vê. O Bolsonaro falando que para salvar o planeta tem que fazer cocô dia sim, dia não. O Brasil tá “fudido”, porque ele faz cagada todos os dias.

Você pega qualquer ministro, ou você ri ou você se joga pela janela do 15º andar. Acontece isso aqui na Bolívia, chegam os memes, mas as notícias do que realmente acontece, da economia, não chegam. Por isso, não tratamos tanto nas eleições daqui. Quando noticiam que no Rio de Janeiro matam qualquer um pelas costas e não acontece nada, as pessoas tratam como se fosse na Síria, não como um país vizinho.

Já na Argentina e no Uruguai, a circulação é maior e Bolsonaro apareceu mais. Argentina e Uruguai consomem muito noticiário internacional, na Bolívia, não. Na Argentina, principalmente.

Os principais desafios da Argentina com Alberto Fernández

O maior desafio dele é a economia interna. Hoje, as pessoas têm que escolher ou pagam suas contas e serviços ou comem. E não é uma figura retórica, o dinheiro não dá para os dois. Minha filha pagava 60 pesos de gás há 3 anos. A última fatura foi de 5.000 pesos. Você enchia o carro com 400 pesos, hoje precisa de 3.600.

O maior desafio do Alberto é estabilizar as contas dos serviços e ele tem que botar dinheiro na carteira das pessoas para que o consumo interno tenha vitalidade. Como faz isso? Nesse momento, o juro bancário está em 76%. Na Bolívia, para você comprar uma casa, paga 5%, na Argentina, 76%.

Agora, com essa votação, ele [Alberto Fernández] vai ter a maioria parlamentar, sem dúvida. E o que não for possível pelo parlamento, ele faz como decreto. Acho que o Alberto vai chegar com 54%, 56%, porque as pessoas estão muito “fudidas”. A Argentina hoje tem 5 milhões de novos pobres. As pessoas não comem. O tecido social está realmente danificado, a economia está muito danificada. A virada vai ser muito grande.

A comparação entre Alberto Fernández e Ciro Gomes

Tenho a infelicidade de conhecer o Ciro. Com muito respeito por um país que eu tive muito carinho, o processo político brasileiro eu conheço um pouco, participei das Diretas Já… Quem faz essa comparação demonstra uma enorme ignorância política. Não pensando só no Brasil, mas tentando fazer um paralelo com o resto do continente.

O Haddad é resultado do sequestro de Lula – eu faço questão de chamar de sequestro – de uma decisão de colocar como candidato uma pessoa leal politicamente, de uma grande ubiquidade, e não deixar lá um trapezista da política, não pôr nesse espaço um cara em que a primeira cosia que ele fez foi ir para a França. 

Em política você não pode ficar regulando a bunda. Você tem uma trincheira, você defende a trincheira. O Haddad enfrentou uma grande batalha. Acabou a batalha, e no dia seguinte ele tava dando aula. A cotidianidade da pessoa fala o que ela é. 

O cenário do Uruguai

No Uruguai, o Frente Ampla tem uma possibilidade de ganhar. A diferença nas pesquisas está dando 15 pontos. O candidato da direita, o Lacalle Pou, é claramente neoliberal na linha mais dura. Ele defende até mesmo a privatização da educação, o que é muito difícil no Uruguai. O Uruguai é formado por 3,5 milhões de pessoas com nível de consciência social muito alto. O nível de discussão é muito alto, é uma discussão política muito elevada, que eu não vi em nenhum outro lugar.

Caso o Martínez ganhe vai ser um governo tão forte quanto foi sempre a Frente Ampla. Não vai ser um governo conteste. É claro que o Lacalle, a direita, vai ficar sempre na outra estrada. Mas no Uruguai, pela inteligência e amadurecimento social e político do país, acontece uma coisa: quem ganhar, ganha. Não tem ninguém falando ‘é fraude’, como no Brasil, na Bolívia, na Argentina. As instituições para eles são intocáveis. O papel das instituições ninguém recusa, é uma coisa bem importante. Eles não brincam com isso.

Historicamente, o Frente era formada por quatro blocos, com 16 partidos, depois viraram 19 e agora ninguém sabe quantos são. São muitos partidos, todos eles têm como presidente Martínez. Cada bloco tem seus deputados e lemas.

Perseguições no Equador

Acho que o Equador tem hoje um governo que traiu o espírito que apresentou na campanha. Tem um governo criminoso, que fez tudo ao contrário do que fez na campanha. Ele traiu a vontade popular.

Agora, promove uma perseguição de opositores, a prisão da Paola Pabón por ser acusada de ser responsável pela mobilização! A única coisa que ele faz é uma perseguição criminosa de opositores. A Paola Pabón está presa. Foi um sequestro, não tinha causa. A Gabriela Rivadeneira pediu asilo na Embaixada do México com sua família.


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