Quem é Pedro Castillo, o sindicalista que se aproxima da vitória no Peru

Revoluciónario na economia, conservador nos costumes, o candidato socialista do Peru Livre conquistou as classes baixas com sua promessa de nova Constituição e mais participação popular

Ainda com a apuração em andamento, já é possível afirmar que Pedro Castillo, professor e sindicalista de 51 anos que se lançou à presidência com o partido Peru Livre, conseguiu conquistar o apoio popular das classes mais baixas do Peru e dos redutos mais interiorizados. Com Keiko Fujimori, filha do ex-ditador Alberto Fujimori, como adversária, o socialista travou uma dura disputa que vai ser decidida voto a voto – mais uma vez.

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Assumidamente de esquerda, o candidato do partido marxista-leninista-mariateguista Peru Livre ganhou o primeiro turno de forma surpreendente, principalmente com o respaldo do interior. Em uma eleição hiperfragmentada, ele alcançou mais de 18% dos votos e ocupou a dianteira na apuração. Logo atrás, surgiu Keiko, da Força Popular.

Se foi azarão no primeiro turno, no segundo ele mostrou que seu apoio popular é real e continuou na liderança das pesquisas mesmo após a união em torno de Keiko formada por grupos midiáticos e pelas elites políticas liberais, incluindo o escritor Mário Vargas Llosa. Na apuração, aos 94.847 %, Castillo ocupa a dianteira com 50,165% dos votos contra 49,835% de Keiko. A margem, apertada, é superior a das eleições de 2016, quando Pedro Paulo Kucinski, o PPK, venceu a filha do ex-ditador por apenas 0,24 ponto percentual.

Quem é Castillo?

Professor na província de Cajamarca, Castillo ganhou projeção nacional quando liderou a greve nacional de docentes de 2017, que paralisou as aulas por três semanas exigindo melhores condições para profissionais de educação. Não é à toa que seu slogan eleitoral é “Palavra de Mestre” e seu símbolo é um lápis gigante.

Terceiro de nove irmãos, desde cedo conheceu a desigualdade no país andino. Começou seus estudos na Escola Rural N° 10465 e depois foi para uma unidade educacional localizada a duas horas de distância, que percorria a pé. Na juventude, trabalhou pela proteção de seu povo. Castillo foi parte dos grupos “ronderos” nos anos 70, que protegiam os campesinos e agricultores sem assistência do Estado no interior do país. Os ronderos também atuaram para resguardar os povos diante da escalada de violência promovida pelo Sendero Luminoso e pelas Forças Armadas nos anos 80-2000.

Racismo

Sua atuação no interior e seu linguajar popular foram alvo de xenofobia, racismo e classimo durante as eleições, conforme apontou à Fórum a historiadora Alejandra Bernedo, pesquisadora da Universidade Nacional de San Marcos e editora do portal Politeama.pe. Para Bernedo, isso pode ser um desafio até em um eventual governo. “É inegável o racismo que terá de enfrentar caso seja eleito. Ao longo da campanha eleitoral, vimos isso contra ele e seus seguidores nas redes sociais. Ele fala com sotaque regional e certos elementos de uma variante do quíchua. Tudo isso está relacionado ao desconhecimento, ao atraso, aos discursos racistas e classistas”, afirmou.

Fujimorismo

Essa postura preconceituosa não é algo muito difícil de esperar do fujimorismo. Durante seu regime, o ex-ditador Alberto Fujimori trabalhou com uma verdadeira limpeza étnica no país, com esterilizações forçadas a mulheres indígenas e campesinas. Cerca de 200 mil foram vítimas dessa violência, que ainda não foi julgada. Herdeira familiar e política do ex-mandatário, Keiko Fujimori minimiza isso e alega que trata-se apenas de políticas de controle de natalidade. Keiko também nega que houve tortura no período.

Além da violência de Estado, o governo repressivo foi marcado pela adesão ao neoliberalismo e a implementação de uma nova Constituição, que ainda não foi revista. Entre as principais propostas de Castillo está, justamente, a de convocar uma Assembleia Constituinte com o objetivo de enterrar o legado fujimorista – situação que lembra a mobilização no Chile contra a herança de Augusto Pinochet.

Nova Constituição

O programa do Peru Livre prevê o abandono do neoliberalismo e a construção de uma “Economia Popular com Mercados”, com um forte papel do Estado, além da estatização de reservas. Anjhela Priale, administradora que foi candidata pelo Peru Livre nesse pleito, disse à Fórum que “a orientação básica e elementar sobre a nova Constituição é recuperar a soberania sobre nosso país e nossos recursos naturais”. “Não administramos nossos recursos e não temos opção para renegociar os contratos das concessões ou criar estatais. Além disso, essa Constituição foi elaborada pela ditadura Fujimori”, aponta.

Mulheres e minorias

Revolucionário na economia, mas conservador nos costumes, o candidato tem posições controversas sobre direitos das mulheres e minorias. Contrário ao matrimônio igualitário e à educação com perspectiva de gênero, Castillo é criticado por movimento sociais progressistas por essa postura. Ao contrário de Keiko Fujimori, ele afirma que não está fechado ao avanço desse debate.

Principal representante dessas pautas, a antropóloga feminista Verónika Mendoza, 6ª colocada nas eleições, está ao lado de Castillo no segundo turno. Mendoza afirma que há um caminho para o diálogo nesses temas. Essa foi a principal cobrança dela quando saiu o resultado do primeiro turno e gerou um pacto de 10 pontos em que o professor se compromete a aprofundar a democracia e a respeitar as minorias, os povos originários e os direitos humanos.

Sendero Luminoso

Caso se confirme a vitória de Castillo, abre-se ainda um novo caminho para a esquerda peruana, que tem sido vítima do “fantasma” do Sendero Luminoso. O candidato foi vítima do chamado “terruqueo”, quando se atribui o alinhamento ao terrorismo a alguém de esquerda, mas isso parece não ter surtido grandes efeitos.

“A associação de qualquer personagem minimamente progressista ao terrorismo é uma constante no Peru, eles têm até nome para isso: terruqueo. Mesmo o presidente Sagasti, um liberal, já foi ‘terruqueado’. O massacre atribuído ao Sendero Luminoso na semana passada abriu espaço para as manifestação de sábado contra o terrorismo, mas parece que a repercussão foi residual. Além disso, acusações muito esdrúxulas contra Castillo não pararam desde que ele se mostrou um candidato viável, então não aparece como novidade para muita gente mais. Talvez o ‘terruqueo’ tenha se desgastado”, avalia o sociólogo Raul Nunes, do Núcleo de Estudos de Teoria Social e América Latina (NETSAL) do IESP-UERJ.

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Lucas Rocha

Lucas Rocha é formado em jornalismo pela Escola de Comunicação da UFRJ e cursa mestrado em Políticas Públicas na FLACSO Brasil. Carioca, apaixonado por carnaval e latino-americanista convicto, é repórter da sucursal do Rio de Janeiro da Revista Fórum e apresentador do programa Fórum América Latina