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08 de janeiro de 2020, 21h38

“Se o objetivo dos EUA era reduzir a influência do Irã, eles fracassaram”, diz professor

"O Irã nunca teve tanta influência quanto nesse momento, e o sinal mais evidente disso foi a decisão do Iraque de expulsar as tropas americanas do território", analisou, em entrevista à Fórum, o professor de Relações Internacionais Igor Fuser; assista

Montagem/Reprodução

Igor Fuser, jornalista e professor de Relações Internacionais na Universidade Federal do ABC (UFABC), explicou, em entrevista à Fórum [assista abaixo], a situação de tensão entre o Irã e os Estados Unidos. Iniciado com o assassinato do general iraniano Qasem Soleimani, o processo tem se intensificado e, nesta quarta-feira (8), foram registrados novos bombardeios no Iraque.

Entretanto, Fuser afirma que a possibilidade de uma guerra não é iminente: “Todas as evidências e as características do conflito me levam a crer que nem os EUA nem o Irã têm interesse numa guerra. Tudo que o Irã não precisa nesse momento é de uma guerra, e quanto aos EUA, a gente não observa um comportamento de guerra até agora.”

Segundo o professor, quando os Estados Unidos planejam uma guerra, há uma política planejada de molde da opinião pública. “O governo dos EUA, antes de ir à guerra, vende essa guerra para o seu público interno e o apoio dos aliados, principalmente da Europa”, explica. “Nada disso aconteceu nesse ataque. Tudo indica que foi um ataque de oportunidade. Esse general era um elemento alvo nas operações do Irã. Ele tomava medidas de precaução [de segurança] que, por algum motivo, no dia do ataque, ele afrouxou. Certamente, o presidente Trump teve que tomar essa decisão [atacar ou não] em pouquíssimo tempo.”

Para Fuser, os ataques recentes caracterizam episódios relativamente isolados, que fazem parte de uma espécie de “show” que é vendido para o público. “Isso é muito diferente de uma guerra, embora seja um ato de guerra. Uma guerra entre os EUA e o Irã seria um conflito de grandes proporções. Envolveria todo o Oriente Médio e, inevitavelmente, a indústria mundial do petróleo”, analisa o professor. “O preço do petróleo duplicaria, triplicaria, iria à lua; com consequências gravíssimas para a economia internacional.”

Além disso, Fuser considera que uma guerra prejudicaria as estimativas eleitorais de Trump, pois teria consequências diretas para a economia norte-americana e seria uma medida dificilmente apoiada pela população neste momento.”No atual momento, os EUA não tem nem ao menos um motivo concreto para ir à guerra com o Irã, são acusações muito vagas. O que se tem é um bate-boca”, pontua. “Os EUA comemoram a eliminação de um inimigo importante, mas isso é relativo, porque a eliminação desses indivíduos jamais muda o cenário mais amplo de um conflito”, completa.

Irã aumenta influência 

Sobre as declarações internacionais dadas pelos líderes de ambos os países, que muitas vezes sugeriram ações violentas porém, em outras, explicitaram um recuo, Fuser considera que “as relações entre os países, os atores no sistema internacional, são muito diferentes do que as relações entre os indivíduos”. Embora os líderes estejam tentando reivindicar vitória em relação ao conflito, o professor diz que “a gente não pode dizer quem ganhou nesse episódio, quem foi o vencedor. Estamos lidando com uma realidade mais complexa do que isso”.

Por outro lado, o professor aponta que “se o objetivo dos EUA é reduzir a influência do Irã no cenário do Oriente Médio, eles fracassaram”.

“O Irã nunca teve tanta influência quanto nesse momento, e o sinal mais evidente disso foi a decisão do Iraque de expulsar as tropas americanas do território”, diz.

Terrorismo?

Na entrevista, Fuser também ressaltou que dificilmente o Irã vai assumir uma postura terrorista nesse momento, mesmo quando se fala em “grande vingança”, em relação à morte do general Soleimani. “O Irã é um país que, apesar de todos os conflitos, jamais assumiu uma única ação terrorista, e jamais houve qualquer prova do envolvimento do Irã em atos terroristas”, afirma. Para ele, o país “não iria jogar fora esse perfil agora, nesse momento, num cenário em que está isolado internacionalmente, alvo de sanções econômicas muito pesadas que estão causando um prejuízo enorme para a economia iraniana, para o bem estar da população”.

Mesmo assim, isso não anula, de acordo com o professor, a possibilidade de ataques desse tipo partirem de outros grupos: “É possível que grupos ligados ao Irã lancem algum tipo de ataque mais fulminante, mais devastador, contra interesses dos EUA em algum lugar, possivelmente no Oriente Médio”.

“O problema do Irã não é de reagir a esse ataque, não é um problema moral. Os estrategistas iranianos pensam a longo prazo, são sofisticados. Se não fossem, não estariam dando esse baile que estão dando nos EUA, nos últimos anos. Eles derrotaram os EUA nas questões realmente fundamentais, ganharam a guerra da Síria”, observa Fuser. “Os EUA mobilizaram uma série de agentes ali, e perderam”, diz.

Diante disso, o professor garante que “o verdadeiro objetivo do Irã não é a vingança. Esse é um estereótipo que se faz porque eles são muçulmanos”. Fuser lembra que “a gente está falando de um estado que é administrado por pessoas extremamente calculistas, inteligentes, que têm uma visão de longo prazo e de conjunto bastante sofisticada do cenário internacional, que não vão agir em nenhum momento pela emoção”.

Rússia, China e Brasil 

“A China e a Rússia saem como defensores da paz e do conflito civilizado entre os países, enquanto os EUA saem como os violentos, os praticantes do terrorismo de estado”, arrisca Fuser. Segundo ele, a relação desses dois países com o Irã vai além desse conflito isolado: “O Irã hoje é um aliado firme da Rússia e da China, e essa aliança vai se solidificar mais ainda depois dos episódios dos últimos dias. Estamos assistindo a consolidação de um bloco de poder de escala mundial, alternativo aos EUA”, analisa o professor.

Fuser também ressalta “o constrangimento dos estadistas europeus diante dessa ação truculenta do Trump”. Ele explica que “a reação europeia revela uma intenção deles de se distanciar, de não se associarem a essa conduta dos EUA no Oriente Médio”.

Enquanto isso, o Brasil se opõe: “O governo Bolsonaro vem se notabilizando pela sua postura de capacho dos EUA, essa postura abjeta, nojenta, de subserviência, de submissão completa aos interesses dos EUA. É um governo que não só age, como mostra ao mundo que ele se comporta, na cena em internacional, a serviço dos interesses dos EUA, e não dos interesses do Brasil”, finaliza.

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