Uruguai: Eleição indefinida marca o domingo

Frente Ampla enfrenta seu maior desafio desde sua chegada ao governo em 2004; Participação eleitoral, votos brancos, nulos e indecisos serão decisivos

O Uruguai que lutou para ser independente da Espanha, da Argentina, de Portugal e teve sua independência do então Império do Brasil conquistada em 1825, tem hoje pouco mais de 3,5 milhões de habitantes.

Destaque como exemplo de boas práticas, com números impressionantes, tem um PIB per capita superior à média latino americana; um IDH “muito alto” (2017); um nível de desigualdade social baixo (Gini, 2017); o título de “país menos corrupto” da América Latina (Transparência Internacional, 2016); bem como, destaca-se como o país mais democrático da América Latina, 27° colocado no mundo em termos de liberdade de imprensa (Freedom House); 21° do ranking anual da revista The Economist, considerado uma “democracia plena”.

No entanto, nem sempre foi assim, a ditadura militar (1973-85) e a chamada transição democrática – muito parecida com a brasileira, deixaram um legado duríssimo, com profundos desafios estruturais. Além do autoritarismo, a ausência de um ambiente democrático e liberdades individuais, a nação uruguaia no início dos anos 90 e 2000 era economicamente atrasada e desigual, com níveis de pobreza que atingiam 30% da população.

Grande parte do sucesso atual dá-se a partir do governo liderado (desde 2004) pela atual coalizão de esquerda chamada Frente Ampla (FA). A vitória do médico oncologista e ex-prefeito de Montevidéu, Tabaré Vasquez, romperia a longa hegemonia política dos partidos Colorado e Nacional que remonta os tempos da fundação do país.

A vitória de Vasquéz e a posterior eleição do icônico Pepe Mujica, foi uma verdadeira revolução democrática para o país. Diferentemente de outros países da região, os uruguaios aprenderam com a crise de 2002 e aproveitaram a valorização dos preços das commodities no mercado mundial, promovendo um projeto nacional de desenvolvimento democrático e com valorização da classe trabalhadora, reconhecido mundialmente.

O reconhecimento do papel estratégico do Estado frente ao mantra do extremismo liberal, a estabilização da economia e a melhoria das condições de vida da população, levaram o país a inovar em questões polêmicas de sua economia, fugindo da dependência histórica do comércio de exportações agrícolas, em particular com a Argentina e o Brasil; assim como, em termos de direitos humanos e civis. Neste sentido, foi declarado o maior exportador de softwares da América do Sul (2005); aprovou o direito ao aborto legal (2012), casamento homo afetivo e a legalização da maconha (2013).

Tais resultados, foram reafirmados por contínuas vitórias da FA, que no último dia 27 de outubro, no 1° turno das eleições gerais, conquistou novamente maioria parlamentar na Câmara e no Senado, bem como a vitória de seu candidato no 1° turno da eleição, o engenheiro mecânico e atual prefeito da capital, Daniel Martínez (39%) contra o senador do Partido Nacional, Luis Lacalle Pou que atingiu 28% dos votos.

Marcado para o próximo domingo (24), o 2° turno da eleição presidencial uruguaia, trará uma disputa duríssima entre os candidatos. A unificação das forças tradicionais de oposição (Blancos [PN] e Colorados – 12%) e novos setores conservadores (Cabildo Abierto – 11%), coloca sobre os governistas o maior desafio desde 2004.

O advogado, Luís Lacalle Pou (PN), que é filho do ex-presidente, Luís Alberto Lacalle (1990-95), tem se aproveitado do discurso da “renovação democrática necessária”, do crescimento da violência, do gasto da máquina pública, enquanto busca distanciar-se de políticos de direita da região como Macri, Sebastián Piñera e Bolsonaro.

Apesar do empate técnico dentro da margem de erro indicado nas pesquisas das empresas Cifra e Telemundo, o candidato de oposição pode surpreender. As pesquisas ainda mostram que a participação – já que a eleição é facultativa, os votos brancos, nulos e indecisos (cerca de 12%) serão decisivos para o futuro do país.

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Vinicius Sartorato

Jornalista e sociólogo. Mestre em Políticas de Trabalho e Globalização pela Universidade de Kassel (Alemanha).