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29 de outubro de 2019, 19h31

Valparaíso: capital da violência de Estado no Chile

Sede do Congresso Nacional e principal porto do país, a cidade teve o mais longo toque de recolher, quantidade de casos de abuso policial ou militar similar ao da capital Santiago, e um nível de violência que seus moradores consideram sem igual em comparação com o resto do país

Foto: Victor Farinelli

Por Victor Farinelli, de Valparaíso (Chile), especial para a Fórum 

No alto do Cerro Alegre, o Paseo Atkison, um dos principais pontos turísticos de Valparaíso, em meio às grades da mureta que dá uma bela vista panorâmica da cidade, um cartaz vermelho com letras negras se encarrega de dar um choque de realidade aos visitantes: 41 MORTOS (em letras garrafais), 12 estupros, 121 detidos desaparecidos… e contando!

Bem-vindos à “Joia do Pacífico”, como é conhecida no cancioneiro popular a cidade portuária mais importante do Chile e sede do Congresso Nacional – considerada pela UNESCO como patrimônio histórico mundial, e pelo Palácio de La Moneda e pelas Forças Armadas chilenas como a cidade mais perigosa do país nos últimos 12 dias.

Apesar dos protestos chilenos terem começado com a revolta pelo aumento no preço do metrô de Santiago, quando as manifestações se expandiram a nível nacional, foi em Valparaíso que elas registraram mais confrontos com policiais e militares (a cidade também é a principal sede da Marinha, cujos soldados estão atuando na zona).

Foto: Victor Farinelli

Também por isso foi a cidade que sofreu maiores restrições à liberdade: enquanto a maior parte do país tinha toque de recolher entre 20h e 5h, em Valparaíso era das 18h às 7h.

Um dia caminhando pelo centro da cidade permite uma análise de como a convulsão nacional está afetando a vida do país. São poucos ônibus que circulam pela cidade e o serviço regional de trens, que liga o porto até as cidades do interior da província, já não entra na cidade – a última estação ativa é Portales, na divisa entre Valparaíso e a vizinha Viña del Mar, bem longe do centro.

Perto da Praça Victória, a mais famosa da cidade, está o monumento Arco Britânico, atacado com tintas e pichações. Nas pilastras dos arcos, há efígies de grandes figuras históricas do país. Uma delas está marcada com um X vermelho e a palavra “TRAIDOR” escrita embaixo: é a de Bernardo O´Higgins, o militar que declarou a independência do país – alguns historiadores consideram que O´Higgins foi responsável pelo assassinato de outros mártires independentistas chilenos, como José Miguel Carrera e Manuel Rodríguez.

As manifestações contam com o apoio do prefeito Jorge Sharp (um dos principais líderes da Frente Ampla de Esquerda), que foi o primeiro a criticar o Estado de exceção decretado pelo presidente Sebastián Piñera. No entanto, a sede da Prefeitura conta com segurança reforçada.

O mesmo acontece em volta do Congresso Nacional, onde ainda há militares ao redor, resguardando o lugar de trabalho de deputados e senadores. Também na sede da Intendência Regional. O intendente é como o governador da região de Valparaíso, mas como o Chile não é um país federal, o ocupante do cargo é nomeado pelo presidente.

Nesta terça-feira (29), centenas de trabalhadores filiados à ANEF (Associação Nacional de Funcionários Públicos) fizeram um protesto pedindo a renúncia de Jorge Martínez, atual ocupante do cargo. A presidenta regional da ANEF é Mabel Zúñiga, e afirmou que “os principais responsáveis pelas mortes, pelos estupros, pelas pessoas presas que estão desaparecidas, pelas torturas são o presidente Piñera e o senhor Martínez, que é quem coloca em prática as ordens aqui na nossa região. Mesmo ontem, que já não havia mais Estado de exceção, houve uma repressão brutal”.

Mabel Zúñiga ao microfone (Foto: Victor Farinelli)

Zúñiga afirma que a repressão vivida em Valparaíso é muito maior que no resto do país: “Não digo em quantidade de casos, mas o nível de violência aqui tem sido maior aqui que no resto do país”.

Em termos de cifras, dos 54 casos de tortura registrado pelo INDH (Instituto Nacional de Direitos Humanos), 13 correspondem à região de Valparaíso (somente Santiago registra mais). A entidade também reconhece 19 denúncias oficiais de estrupo, dos quais 6 são na cidade portuária (também só superada pela capital).

Alguns edifícios históricos de Valparaíso cidade foram alvo de ataques incendiários, como a Catedral da cidade e a sede do Mercúrio de Valparaíso, que não só é o jornal mais antigo do Chile como o mais antigo do mundo em idioma espanhol (entre os jornais ainda em circulação). Alguns templos sedes de igrejas evangélicas também foram atacados. No caso das escolas, algumas estatais foram ocupadas pelos estudantes do próprio estabelecimento, mas não há casos de destruição. Outro edifício histórico que foi quase totalmente poupado (somente algumas poucas pichações) foi o da Biblioteca Municipal, o que também chama a atenção.

Sede do jornal Marcúrio de Valparaíso (Foto: Victor Farinelli)

Também houve tentativa de arrombamento da sede do clube de futebol da cidade, o Wanderers, que tem a quarta maior torcida do país e a maior de fora de Santiago. Em 2009, o clube (conhecido como o Verdão do Chile) se tornou empresa, e desde então seu principal acionista é Nicolás Ibáñez, que também é dono da maior rede de supermercados do Chile (Lider). Nas redes sociais do clube, a maioria das declarações de torcedores justificaram o ataque à sede, como forma de protesto contra o alto preço das entradas. Um dos líderes da torcida wanderina é Matías Alegría, que conta que “aqueles que sonham em recuperar o clube e tirá-lo das mãos dos empresários estão vendo nessa convulsão uma oportunidade”.

Biblioteca municipal foi preservada pelos manifestantes (Foto: Victor Farinelli)

Avaliando a ação de ataque ao comércio, também é possível ver certa lógica até mesmo na ação de saqueadores. São poucos os casos de pequenos negócios atacados (embora existam), e muitíssimos os ataques a locais de grandes redes de supermercados, farmácias, lojas de grife, etc. Os símbolos dos grandes poderes econômicos foram os mais atacados.

As redes de farmácia Cruz Verde e SalcoBrand tiveram quase todas as suas lojas saqueadas, e o mesmo aconteceu com os supermercados das redes Lider, Unimarc, e Santa Isabel. Os poucos edifícios desses que se salvaram estão selados com placas de metal reforçado. Desde o dia 19 de outubro, nenhum supermercado funciona em Valparaíso, o que faz com que muitas pessoas viajem até Viña del Mar para fazer suas compras.

Na Praça Aníbal Pinto, no centro da cidade, a Botica Unión é uma das poucas farmácias que estava aberta na cidade, nesta terça-feira (29). Seu dono, o senhor Bruno (que não quis dizer seu sobrenome), conta que “tentaram forçar a entrada algumas vezes, mas não conseguiram”. Apesar dessa ameaça, ele assegura que está a favor das reivindicações dos manifestantes: “A gente sabe que não é fácil a vida das pessoas, eu tenho uma farmácia que já vendia genéricos desde antes do governo criar uma lei para esses produtos aqui no Chile, as pessoas precisam disso”.

O senhor Bruno não acredita que os preços dos medicamentos no Chile sejam mais caros, mas “o problema do Chile é que tudo custa dinheiro, talvez o preço não seja diferente do que vocês têm no Brasil, mas como nós temos que gastar com tudo, a educação custa dinheiro, a saúde, todos os gastos que se acumulam tornam o custo de vida sufocante”.

Na frente da farmácia do senhor Bruno, e de muitíssimos outros pequenos negócios, há cartazes de apoio às manifestações e pedindo para que o local não seja destruído, apelando para o que é a fonte de renda de pessoas humildes. Por qualquer lado onde se ande em Valparaíso é possível ver pichações dizendo coisas como “maldito capitalismo”, ou “democracia de papelão”, ou “Valpo Antifa”, ou “perdemos a paciência”, ou “Não vamos parar até mudar o país”.

Foto: Victor Farinelli


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