sábado, 24 out 2020
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Wiphala: Queima da bandeira indígena evidencia racismo do golpe na Bolívia

Do Chile, especial para a Fórum

Desde o início do golpe de Estado na Bolívia tem sido comum ver cenas de grupos violentos invadindo edifícios governamentais e queimando a Whipala, a bandeira dos povos indígenas. Essas ações não são por acaso: expõem o racismo aos povos indígenas que é uma das características mais evidentes do movimento golpista.

Desde a promulgação da Constituição de 2008, a Bolívia assumiu sua condição de Estado Plurinacional, o que consistiu em reconhecer suas 36 diferentes nacionalidades, cada um dos seus povos originários existentes no país.

Para consolidar essa transformação, o país adotou oficialmente a Whipala, a bandeira quadriculada de sete cores que representa a diversidade étnica e cultural das comunidades indígenas, que passou a ter o mesmo status da bandeira verde, amarela e vermelha.

A antropóloga Francisca Fernández, da Universidade de Humanismo Cristão do Chile, conta que a Whipala, embora seja mais ligada às culturas quíchua e aimará, passou a ser aceita desde os anos 70 como símbolo da luta por autonomia de muitos os povos indígenas na América do Sul. “Mesmo no Chile ou no Equador, você vê movimentos pela luta dos povos indígenas onde há grupos que trazem a Whipala como emblema de sua luta. Quando ela se tornou símbolo oficial na Bolívia, isso teve um significado enorme”.

A partir de então, a Whipala passou a ser içada em todos os edifícios governamentais e estádios esportivos. Também os uniformes policiais e militares passaram a usar as duas bandeiras nos ombros das camisas.

Poder à elite

É essa representação dos povos originários que os golpistas liderados pelo empresário e fundamentalista religioso Luis Fernando Camacho estão tentando apagar desde o domingo (10). Segundo a antropóloga Fernández, “a ação de queimar a Whipala tem a ver com uma intenção de restabelecer a invisibilização dos povos indígenas, e devolver todo o poder à mesma elite que domina o país desde a época colonialista”.

Victor Farinelli
Victor Farinelli
Jornalista formado pela Universidade Católica de Santos, há 15 anos é correspondente na Argentina (2004 e 2005) e no Chile (desde 2006).