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O pequeno país asiático que foi o mais bombardeado da história humana

Apesar de nunca ter entrado em guerra com os EUA, esse país foi mais bombardeado do que a Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial

Escrito en História el
Historiadora e professora, formada pela Universidade Estadual Paulista (UNESP). Escreve sobre história, história politica e cultura.
O pequeno país asiático que foi o mais bombardeado da história humana
Grupo de caçadores de bombas de Laos. Wikimedia Commons

Os Estados Unidos têm um longo histórico de intervenções militares ao redor do mundo. Além de terem sido o único país a usar armas nucleares em um conflito — nas cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki em 1945 —, os EUA também protagonizaram ações devastadoras em outras regiões, especialmente durante a Guerra Fria, em seu esforço para conter o avanço do comunismo.

Entre os países mais afetados por essa política, Laos ocupa um lugar singular. Localizado no coração do Sudeste Asiático, sem saída para o mar e limitado pelo Vietnã, Camboja, Tailândia, Mianmar e China, o pequeno país se tornou, paradoxalmente, o território mais bombardeado do planeta, mesmo sem jamais ter declarado guerra aos Estados Unidos.

A Guerra do Vietnã e Laos

Antes da Guerra do Vietnã, o Laos vivia um período de transição política. O país, então parte da antiga Indochina Francesa, conquistou sua independência da França em 1953. No entanto, logo mergulhou em uma guerra civil entre o governo monárquico, apoiado pelos Estados Unidos, e o movimento comunista Pathet Lao, aliado do Vietnã do Norte e da União Soviética.

Essa disputa interna transformou o país em um palco estratégico da Guerra Fria na Ásia. Com o aumento do conflito no Vietnã, o território laosiano passou a ser usado como rota de transporte de suprimentos militares pelo Exército do Vietnã do Norte, por meio da chamada Trilha Ho Chi Minh — um complexo sistema de estradas e caminhos que atravessava florestas e montanhas entre o Vietnã, Camboja e Laos.

A “guerra secreta” dos EUA em Laos

Entre 1964 e 1973, os Estados Unidos lançaram uma campanha aérea massiva e não declarada oficialmente em território laosiano. Conhecida como “Operação Barrel Roll”, essa ofensiva tinha como objetivo cortar o apoio logístico ao Vietnã do Norte e conter o avanço comunista na região.

Durante quase uma década, o país foi submetido a 580 mil missões aéreas e recebeu mais de 2 milhões de toneladas de bombas — uma quantidade superior ao total lançado durante toda a Segunda Guerra Mundial. Estima-se que um terço dessas bombas não explodiu, deixando o solo de Laos repleto de explosivos que continuam a matar e ferir civis até hoje.

A população local, em grande parte rural e sem envolvimento direto no conflito, foi profundamente afetada. Centenas de vilarejos foram destruídos, milhares de pessoas morreram e muitos habitantes precisaram se refugiar em cavernas para escapar dos bombardeios incessantes.

O fim da Guerra do Vietnã, em 1975, não trouxe alívio imediato a Laos. O Partido Comunista Pathet Lao assumiu o poder e fundou a República Democrática Popular do Laos, alinhada politicamente ao Vietnã e à União Soviética. Porém, o país herdou um legado devastador: vastas áreas agrícolas inutilizadas por bombas não detonadas e uma economia fragilizada.

Segundo dados da ONU, cerca de 80 milhões de explosivos permanecem ativos em solo laosiano. Desde o fim da guerra, mais de 50 mil pessoas já foram mortas ou feridas por detonações acidentais. Organizações internacionais e governos estrangeiros — inclusive os próprios Estados Unidos — financiam projetos de desminagem e educação sobre riscos explosivos, mas a limpeza completa pode levar muitas décadas.

Cratera formada em Xépôn no Laos após a explosão de uma bomba antiga
(foto: wikimedia commons)

De acordo com um estudo de 2024, as áreas de Laos que foram mais atingidas pelas bombas norte americanas tem atraso de desenvolvimento social e econômico mais severo comparado às outras regiões do país.

Embora o título de país mais bombardeado da história ainda pertença a Laos, a Palestina passou a figurar entre as regiões mais atingidas por ataques aéreos após a escalada do conflito com Israel em 2023 — um confronto que remonta à ocupação israelense em 1948. A ofensiva brutal israelense é financiada e apoiada pelos EUA.

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