O pequeno país asiático que foi o mais bombardeado da história humana
Apesar de nunca ter entrado em guerra com os EUA, esse país foi mais bombardeado do que a Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial
Os Estados Unidos têm um longo histórico de intervenções militares ao redor do mundo. Além de terem sido o único país a usar armas nucleares em um conflito — nas cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki em 1945 —, os EUA também protagonizaram ações devastadoras em outras regiões, especialmente durante a Guerra Fria, em seu esforço para conter o avanço do comunismo.
Entre os países mais afetados por essa política, Laos ocupa um lugar singular. Localizado no coração do Sudeste Asiático, sem saída para o mar e limitado pelo Vietnã, Camboja, Tailândia, Mianmar e China, o pequeno país se tornou, paradoxalmente, o território mais bombardeado do planeta, mesmo sem jamais ter declarado guerra aos Estados Unidos.
A Guerra do Vietnã e Laos
Antes da Guerra do Vietnã, o Laos vivia um período de transição política. O país, então parte da antiga Indochina Francesa, conquistou sua independência da França em 1953. No entanto, logo mergulhou em uma guerra civil entre o governo monárquico, apoiado pelos Estados Unidos, e o movimento comunista Pathet Lao, aliado do Vietnã do Norte e da União Soviética.
Essa disputa interna transformou o país em um palco estratégico da Guerra Fria na Ásia. Com o aumento do conflito no Vietnã, o território laosiano passou a ser usado como rota de transporte de suprimentos militares pelo Exército do Vietnã do Norte, por meio da chamada Trilha Ho Chi Minh — um complexo sistema de estradas e caminhos que atravessava florestas e montanhas entre o Vietnã, Camboja e Laos.
A “guerra secreta” dos EUA em Laos
Entre 1964 e 1973, os Estados Unidos lançaram uma campanha aérea massiva e não declarada oficialmente em território laosiano. Conhecida como “Operação Barrel Roll”, essa ofensiva tinha como objetivo cortar o apoio logístico ao Vietnã do Norte e conter o avanço comunista na região.
Durante quase uma década, o país foi submetido a 580 mil missões aéreas e recebeu mais de 2 milhões de toneladas de bombas — uma quantidade superior ao total lançado durante toda a Segunda Guerra Mundial. Estima-se que um terço dessas bombas não explodiu, deixando o solo de Laos repleto de explosivos que continuam a matar e ferir civis até hoje.
A população local, em grande parte rural e sem envolvimento direto no conflito, foi profundamente afetada. Centenas de vilarejos foram destruídos, milhares de pessoas morreram e muitos habitantes precisaram se refugiar em cavernas para escapar dos bombardeios incessantes.
O fim da Guerra do Vietnã, em 1975, não trouxe alívio imediato a Laos. O Partido Comunista Pathet Lao assumiu o poder e fundou a República Democrática Popular do Laos, alinhada politicamente ao Vietnã e à União Soviética. Porém, o país herdou um legado devastador: vastas áreas agrícolas inutilizadas por bombas não detonadas e uma economia fragilizada.
Segundo dados da ONU, cerca de 80 milhões de explosivos permanecem ativos em solo laosiano. Desde o fim da guerra, mais de 50 mil pessoas já foram mortas ou feridas por detonações acidentais. Organizações internacionais e governos estrangeiros — inclusive os próprios Estados Unidos — financiam projetos de desminagem e educação sobre riscos explosivos, mas a limpeza completa pode levar muitas décadas.
(foto: wikimedia commons)
De acordo com um estudo de 2024, as áreas de Laos que foram mais atingidas pelas bombas norte americanas tem atraso de desenvolvimento social e econômico mais severo comparado às outras regiões do país.
Embora o título de país mais bombardeado da história ainda pertença a Laos, a Palestina passou a figurar entre as regiões mais atingidas por ataques aéreos após a escalada do conflito com Israel em 2023 — um confronto que remonta à ocupação israelense em 1948. A ofensiva brutal israelense é financiada e apoiada pelos EUA.