Buracos misteriosos de 5 mil anos encontrados aos pés dos Andes têm segredo revelado
Até recentemente, acreditava-se que os buracos remontassem a de cerca de mil a 1.200 anos d.C., durante a ocupação do Império Inca na região; mas descobertas recentes oferecem uma nova perspectiva
Uma faixa de terra de 1,5 km de extensão aos pés dos Andes, no Vale de Pisco, sul do planalto costeiro peruano, é marcada por um conjunto de aproximadamente 5.200 sucções no solo, cada uma medindo entre um e dois metros de diâmetro e quase um metro de profundidade, organizadas em padrões de blocos no solo do Monte Sierpe, de função até então desconhecida.
Até recentemente, acreditava-se que os buracos remontassem a de cerca de mil a 1.200 anos d.C., durante a ocupação do Império Inca na região. No entanto, novas datações por radiocarbono feitas a partir de material de carvão recuperado dos buracos indica um período ainda mais antigo para a construção dessas estruturas, cuja origem está associada à atividade humana.
Fonte: Bongers et al.
De acordo com um novo estudo publicado no periódico Antiquity — que combina a análise de imagens de alta resolução obtidas por mapeamento aéreo com drones (patagonometria) e estudos microbotânicos, como a análise de pólen para compreender a organização espacial e o conteúdo orgânico dos buracos —, o monumento precede a chegada dos incas à região e pode estar relacionado à cultura Chincha.
O reino Chincha floresceu na região durante o Período Intermediário Tardio, entre 1100 e 1450 d.C., no Peru pré-colombiano, e foi incorporado ao Império Inca por volta de 1480. Suas populações eram compostas por comerciantes e marinheiros que habitavam vales férteis e desapareceram após a conquista espanhola do Peru.
Sedimentos microbotânicos extraídos de pelo menos 19 buracos da faixa continham, segundo os pesquisadores, amostras de milho, cereais temperados e abóboras, além de resíduos de fibras vegetais usadas em cestos — indícios de que os buracos provavelmente serviram como recipientes para abrigar cestos de mantimentos.
A interpretação hipotética dos arqueólogos é que o local funcionava como um pátio de trocas ou mercado local antes da ocupação incaica, mobilizando produtos agrícolas e recursos transportados por caravanas de lhamas que chegavam à região.
Séculos depois da ocupação Chincha, os incas reinterpretaram os buracos como um sistema de registro tributário e contabilidade territorial que espelhava a lógica dos khipus (que significam "nós", em inca) — cordões com nós coloridos que representavam unidades numéricas, em que cada posição indicava um valor. Assim, os buracos teriam servido como “khipus na paisagem”, cada um representando uma unidade de registro físico do terreno.
Cada buraco poderia ter correspondido a um tipo de produto comercializado na região, a uma comunidade ou a um tributo — como se a faixa de terra esburacada dos incas fosse um grande registro fiscal do império, integrando as práticas administrativas à infraestrutura deixada pelos Chincha.
Além disso, o Monte Sierpe está localizado na chaupiyunga, uma área ecológica de transição entre a planície costeira e os vales das terras altas, notam os pesquisadores.
Como os grupos que viviam nessas zonas geralmente controlavam o acesso às nascentes da irrigação a jusante e a importantes fontes minerais das terras altas, a chaupiyunga tornou-se um centro de interação e um cenário privilegiado para grupos costeiros, grupos locais e grupos vindos das terras altas, que se reuniam para trocar produtos e negociar o acesso à terra, água e minerai.
"O Monte Sierpe pode, portanto, ter servido como um local para que esses grupos depositassem mercadorias. As seções do sítio foram mantidas compactas para facilitar a movimentação ao longo de suas laterais, acima das encostas das cristas. As áreas vazias entre as seções provavelmente funcionavam como “passagens” para permitir a movimentação leste-oeste pelo sítio, enquanto os espaços entre buracos consecutivos são grandes o suficiente para permitir a movimentação dentro das seções", concluem.