Astarte: a Deusa de quase 5 mil anos de idade que rompia com as normas de gênero
Essa Deusa inspirou Ártemis, Afrodite e Vênus, mas poucos sabem de sua existência
Astarte foi a principal divindade da mitologia fenícia, associada ao planeta Vênus, à lua, à fertilidade, ao amor, à beleza, à caça e à guerra. Seu culto remonta a aproximadamente 3000 a.C. e atravessou milênios, acompanhando o florescimento da civilização fenícia durante a Idade do Bronze até a Antiguidade Clássica.
Em algumas versões mitológicas semíticas, Astarte é descrita como filha de Baal, irmã gêmea de Camoesh e esposa do deus pastor Tammuz, o que a liga diretamente aos ciclos de renascimento da natureza e da vegetação.
Os fenícios foram uma das civilizações mais influentes da Antiguidade, embora nunca tenham formado um império centralizado. Viviam em cidades-estado independentes — como Tiro, Sidon, Biblos e Arados — instaladas ao longo da costa do atual Líbano, parte da Síria e do norte da Palestina. Entre o terceiro milênio e o século I a.C., desenvolveram sociedades comerciais e marítimas extraordinárias, conectando o Mediterrâneo através de rotas e colônias que chegavam até o norte da África, Sicília, Chipre e Espanha.
(foto: wikipédia)
Sua posição geográfica, limitada em terras férteis, estimulou o domínio da navegação. Fabricaram embarcações robustas, desenvolveram técnicas de cartografia primitiva e se tornaram grandes intermediários culturais entre Egito, Mesopotâmia e o mundo egeu. Também deixaram marcas profundas na escrita ao criarem o alfabeto fonético, que influenciaria diretamente o alfabeto grego e, por fim, o latino.
A religião fenícia era politeísta, profundamente ligada aos ciclos da natureza, ao mar e à fertilidade — bases da sobrevivência e prosperidade desse povo.
Por meio das trocas comerciais fenícias, Astarte cruzou mares, portos e fronteiras culturais. No Egito, foi identificada com Ísis; na Grécia, associada a Afrodite; e em Roma, absorvida como Vênus. Sua figura também dialoga com as divindades mesopotâmicas Ishtar e Inanna — deusas mais antigas, que compartilhavam atributos de amor, erotismo, fertilidade e guerra.
Assim, Astarte tornou-se um arquétipo pan-mediterrânico do feminino divino, adaptado e reinterpretado conforme cada sociedade a recebia.
(foto: wikipédia)
Erotismo, fertilidade e mito
Astarte ganhou fama por seus rituais marcados pelo erotismo e pela liberdade sexual, muitas vezes descritos como transgressões das normas de gênero e comportamento da época, já que Astarte era também Deusa da caça, atividade geralmente atribuída aos homens. Há evidências de que rituais de fertilidade incluíam oferendas corporais, danças de teor sexual e celebrações em transe. Ela geralmente era representada acompanhada de leões.
O ponto alto de seu culto acontecia no equinócio da primavera, período que simbolizava renascimento, fertilidade da terra e vigor da vida. As festividades envolviam procissões, libações, rituais simbólicos de união e intensa participação comunitária. Por sua profunda ligação com o erotismo e o vitalismo, Astarte tornou-se uma deusa extraordinariamente popular.
Astarte representava dualidades fundamentais: era ao mesmo tempo amante e guerreira, criadora e destruidora, lunar e estelar. Como consorte de Tammuz em algumas tradições, encarnava o ciclo natural de morte e renascimento das plantações. Já sua face guerreira a tornava protetora dos exércitos e símbolo de poder — uma deusa capaz de influenciar o destino das batalhas.
Sua influência não se apagou com o declínio dos cultos politeístas. Astarte deixou marcas duradouras na iconografia, na literatura, na arte e até na demonologia medieval — reflexo de como antigas deusas foram reinterpretadas quando novas religiões se instalaram.