Lutou contra um império. Desafiou a opressão. E se tornou o símbolo máximo da liberdade negra
A trajetória do líder palmarino revela a complexidade política, cultural e militar de uma das maiores experiências de resistência negra das Américas
O 20 de novembro, data da morte de Zumbi dos Palmares, não marca apenas o fim de uma vida. Marca o começo de uma memória coletiva que atravessa séculos. No Dia da Consciência Negra, Zumbi e o Quilombo dos Palmares voltam ao centro do debate público porque representam a luta mais longa e organizada contra a escravidão no Brasil. Mas, para entender essa história, é preciso separar aquilo que os documentos comprovam daquilo que vem da tradição oral — sem esquecer que ambos constroem a identidade negra no país.
Os registros coloniais permitem reconstituir uma parte fundamental dessa trajetória. Documentos oficiais mencionam Palmares desde 1597, descrevendo mocambos espalhados pela Serra da Barriga, atual Alagoas, onde milhares de pessoas fugidas da escravidão criaram uma sociedade própria. A área, cercada por matas densas e relevo acidentado, oferecia proteção natural e recursos suficientes para agricultura, caça e produção de alimentos. Além de sustentar sua população, Palmares chegou a desenvolver um comércio clandestino com moradores vizinhos, trocando farinha, manteiga de amêndoa e vinho de palma por pólvora, tecidos e ferramentas.
O mocambo Macaco funcionava como centro político e militar, liderado inicialmente por Ganga Zumba. Em 1678, após décadas de embates, o governo colonial propôs um acordo de paz que previa terras demarcadas e autonomia limitada. Parte dos palmarinos aceitou. Outra parte recusou — liderada por um jovem guerreiro chamado Zumbi.
Zumbi dos Palmares: história e a memória
As informações documentais sobre Zumbi são poucas, mas precisas em um ponto: ele se torna a principal liderança militar de Palmares a partir de 1678 e assume o comando da resistência, reorganizando mocambos e mantendo o abrigo a escravizados fugitivos. Também está registrado que sua morte ocorreu em 20 de novembro de 1695, após ser localizado na Serra Dois Irmãos.
A partir daí, a figura de Zumbi se divide em duas dimensões. A primeira, documentada, é o guerreiro que recusou a rendição e comandou a defesa final de Palmares contra as investidas coloniais e paulistas. A segunda, preservada pela memória popular, conta que Zumbi teria sido criado por um padre quando criança, batizado como Francisco, treinado em latim e português, e que teria fugido da igreja para retornar ao quilombo.
A combinação entre fatos comprovados e memória coletiva é parte essencial do legado de Palmares. Mesmo após a morte de Zumbi, mocambos remanescentes continuaram resistindo por décadas. Hoje, essa história permanece como símbolo de liberdade, identidade e afirmação política — e é isso que o 20 de novembro busca manter vivo.
Fontes:
- De olho em Zumbi dos Palmares: histórias, símbolos e memória social. Flávio dos Santos Gomes; coordenação de Lilia Moritz Schwarcz e Lúcia Garcia. Claroenigma 2011.
- PALMARES: escravidão e liberdade no Atlântico Sul. GOMES, Flávio. São Paulo: Contexto, 2011.
- Enciclopédia brasileira da diáspora africana. LOPES, Nei. São Paulo: Selo Negro Edições, 2011.