Escritora e filha de ex-escravizada, essa mulher escreveu o primeiro romance abolicionista do Brasil
Nascida no Maranhão, essa foi uma das educadoras e escritoras mais importantes do Brasil. Esquecida, seu nome foi resgatado recentemente
Filha de uma ex-escravizada e de um homem branco de posses, Maria Firmina dos Reis nasceu em 1822, na vila de São José de Guimarães, no Maranhão, em uma sociedade estruturada sobre a escravidão e o patriarcado. Registrada apenas aos três anos de idade — prática comum quando se tratava de crianças negras e pobres — Maria cresceu em um ambiente hostil à educação feminina e ainda mais excludente para mulheres negras. Apesar das barreiras sociais, desde jovem demonstrou vocação intelectual e sensibilidade literária.
Discreta e dedicada ao trabalho, Maria Firmina nunca se casou, mas teve filhos adotivos. Sua vida pessoal esteve profundamente ligada à atuação comunitária, ao magistério e à escrita. Além de professora, era respeitada localmente como musicista, compositora e autora de hinos religiosos e cívicos.
Em 1847, Maria Firmina prestou concurso público para a cadeira de Primeiras Letras, uma das poucas oportunidades formais para o magistério no período. Concorrendo em um ambiente dominado por homens brancos, ela venceu o concurso e se tornou professora pública — um feito extraordinário. Anos depois, fundaria em sua comunidade uma escola mista, aberta a alunos pobres e meninas, algo considerado profundamente transgressor e progressista no século XIX. Sua visão de educação estava ligada à justiça social, à inclusão e ao combate às desigualdades.
O romance 'Úrsula'
Durante sua vida como professora, Maria Firmina escreveu Úrsula, publicado anonimamente em 1859 sob o pseudônimo “Uma Maranhense”. Esse anonimato não foi mero gesto literário: era uma estratégia necessária em uma sociedade que raramente aceitava mulheres — e praticamente nunca mulheres negras — como autoras legítimas. Úrsula tornou-se, assim, o primeiro romance abolicionista escrito por uma mulher no Brasil e uma das obras pioneiras da literatura afro-brasileira.
Úrsula narra a história de amor trágico entre Tancredo e a jovem Úrsula, marcada por desventuras familiares, opressões patriarcais e conflitos morais. No entanto, o romance vai muito além de sua trama melodramática típica do romantismo. Firmina introduz personagens escravizados — especialmente Susana e Túlio — que ganham voz própria e narram, em primeira pessoa, suas experiências de sofrimento, violência, separação familiar e perda de identidade. Essas passagens fazem de Úrsula uma obra profundamente subversiva: pela primeira vez na literatura brasileira, pessoas negras escravizadas não eram figurantes nem alegorias, mas sujeitos históricos que denunciavam o sistema escravista desde dentro. Essa perspectiva inaugura no Brasil uma crítica racial e moral à escravidão que antecede os romances abolicionistas masculinos mais consagrados, como A Escrava Isaura (1875) e O Mulato (1881).
(foto: wikipédia)
Repercussão de 'Úrsula'
Apesar de sua importância histórica, Úrsula teve pouca repercussão em sua época. O racismo, a misoginia e a centralização editorial no Sudeste contribuíram para que a obra permanecesse praticamente invisível por mais de um século. Foi apenas a partir da segunda metade do século XX, especialmente nas décadas de 1970 e 1980, que pesquisadores e intelectuais negros redescobriram seu trabalho e o resgataram para o cânone literário. Hoje, a obra é estudada em universidades, adotada em escolas e reconhecida como fundadora da literatura afro-brasileira.
Outras obras
Além de Úrsula, Maria Firmina produziu uma obra diversificada. Publicou o romance “Gupeva” (1861), dialogando com o indianismo romântico, e escreveu o conto “A Escrava” (1887), um dos textos abolicionistas mais importantes publicados às vésperas da Lei Áurea. Sua produção inclui ainda poesias, hinos cívicos, composições musicais e artigos de jornal — muitos dos quais ainda estão sendo recuperados por pesquisadores. O conjunto de sua obra revela uma autora politicamente engajada, sensível aos dramas sociais e comprometida com a justiça racial.
Hoje, Maria Firmina dos Reis é reconhecida como uma das mais importantes escritoras do século XIX, pioneira da literatura afro-brasileira e figura central do movimento abolicionista intelectual.
Maria Firmina morreu aos 95 anos de idade. Cega e pobre, Maria viveu seus últimos anos na casa da mãe de um de seus filhos adotados, uma ex-escravizada.