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Fela Kuti: quem foi o gênio da música que mudou para sempre a história da África

Ele criou o Afrobeats e construiu uma comuna na Nigéria, conheça mais desse músico e ativista político

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Historiadora e professora, formada pela Universidade Estadual Paulista (UNESP). Escreve sobre história, história politica e cultura.
Fela Kuti: quem foi o gênio da música que mudou para sempre a história da África
Fela Kuti em 1986. wikipédia

Fela Anikulapo Kuti foi uma das figuras mais influentes da história da Nigéria e do continente africano. Nascido em 1938, em Abeokuta, no sudoeste nigeriano, ele veio de uma família de classe alta e profundamente engajada na vida intelectual e política do país. Sua mãe, Funmilayo Ransome-Kuti, foi uma das maiores líderes feministas da África Ocidentalativista anticolonial, defensora dos direitos das mulheres e figura central na luta contra a dominação britânica. Seu pai, Reverendo Israel Oludotun Ransome-Kuti, foi um educador respeitado e pioneiro na promoção da educação pública na Nigéria.

Esse ambiente politizado, crítico e culturalmente vibrante moldou o artista que Kuti se tornaria: músico brilhante, provocador, radical e um dos maiores ativistas africanos do século XX.

A criação do afrobeat

Fela estudou música em Londres nos anos 1950, onde teve contato com jazz, highlife, soul e ritmos afro-americanos. Nos anos seguintes, viajou aos Estados Unidos, onde sua visão artística e política se transformou profundamente. Lá, aproximou-se de movimentos negros revolucionários, conviveu com membros dos Panteras Negras, estudou o pensamento de Malcolm X e mergulhou em debates sobre afrocentrismo, descolonização e resistência racial. Essa experiência redefiniu sua compreensão sobre identidade africana e sobre o papel político da música.

Ao retornar à Nigéria, Fela canalizou todas essas influências — tanto musicais quanto ideológicas — para desenvolver um estilo próprio, fundindo ritmos tradicionais africanos com jazz, funk e percussões complexas. Nascia o afrobeat, gênero que se tornaria sua marca registrada e, mais tarde, influenciaria artistas do mundo inteiro — de Beyoncé a Erykah Badu, de Thom Yorke ao hip hop contemporâneo.

O afrobeat era mais que música: era manifesto. Em composições muitas vezes superiores a dez minutos, Fela construía longos solos, arranjos elaborados, sessões de sopros poderosas e letras afiadas, denunciando corrupção, violência policial, autoritarismo militar e profundas desigualdades sociais na Nigéria pós-independência.

Capa de um dos primeiros discos de Kuti
(foto: wikipédia)

Kalakuta Republic

A radicalidade de Fela não estava apenas em suas canções. Ele criou, em Lagos, a Kalakuta Republic, uma comuna autodeclarada independente, onde viviam músicos, ativistas, familiares e colaboradores. O local era, ao mesmo tempo, estúdio, residência e centro político. Lá, Fela organizava shows, debates e ações de enfrentamento ao governo militar nigeriano.

A Kalakuta Republic era permanentemente vigiada pelo Estado. Em 1977, o exército realizou um ataque brutal ao local, incendiando o complexo. Durante a invasão, a mãe de Fela foi jogada de uma janela por soldados e morreu meses depois em decorrência dos ferimentos — um trauma que marcou profundamente sua trajetória.

Em resposta, Fela compôs Coffin for Head of State e levou o caixão de sua mãe até a sede do governo militar como forma de protesto simbólico.

Ao longo de sua carreira, Fela foi preso dezenas de vezes e sofreu censura permanente, mas nunca se calou. Ele criticou abertamente o imperialismo europeu, a elite política nigeriana e o uso do poder militar para reprimir a população.

Ao mesmo tempo, defendia uma filosofia própria, o “Kalakuta Afrikanism”, que pregava autonomia africana, valorização da ancestralidade e libertação das mentalidades colonizadas. Sua visão política influenciou gerações de ativistas e intelectuais africanos.

Fela Kuti morreu em 1997, mas sua obra continua viva. O afrobeat se espalhou pelo mundo e originou novos movimentos musicais e sociais. Sua vida inspirou livros, documentários e um musical de sucesso na Broadway. Seus filhos, Femi e Seun Kuti, continuam liderando bandas de afrobeat e preservando seu legado.

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