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Não foi na Bahia: descobrimento do Brasil teria sido em outro estado brasileiro, afirmam cientistas

Pesquisadores analisaram cartas de Pero Vaz de Caminha e contestam versão oficial da chegada de Cabral

Escrito en História el
Historiadora e professora, formada pela Universidade Estadual Paulista (UNESP). Escreve sobre história, história politica e cultura.
Não foi na Bahia: descobrimento do Brasil teria sido em outro estado brasileiro, afirmam cientistas
Chegada de Pedro Álvares Cabral em Porto seguro, gravura de 1904. wikipédia

Um estudo desenvolvido por dois pesquisadores do Nordeste reacende o debate sobre a verdadeira rota da frota de Pedro Álvares Cabral em 1500. Os físicos Carlos Chesman, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), e Carlos Furtado, da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), publicaram no Journal of Navigation, da Universidade de Cambridge, uma análise que questiona a versão oficial de que o primeiro ponto avistado pelos portugueses no Brasil foi o litoral sul da Bahia.

Com base em dados de ventos, correntes marítimas e uma leitura científica da famosa carta de Pero Vaz de Caminha, os autores propõem que a esquadra de Cabral pode ter alcançado primeiro o litoral do Rio Grande do Norte, e não o atual município de Porto Seguro (BA).

A pesquisa combina múltiplas linhas de evidência:

  • datas e distâncias registradas por Caminha;
  • velocidades e direções das correntes marítimas no Atlântico;
  • padrões de vento da época.

A partir desses elementos, Chesman e Furtado realizaram tanto simulações computacionais de navegação quanto expedições práticas, refazendo trechos do trajeto para testar sua viabilidade. Segundo eles, uma rota partindo de Cabo Verde em 23 de março de 1500 encaixa-se de forma mais consistente com as descrições do escrivão da frota se o destino final for um ponto no litoral potiguar.

No texto de Caminha, a esquadra relata ter avistado um “grande monte, mui alto e redondo”, seguido da aproximação a “a boca de um rio”, onde lançaram âncora.

Os físicos sugerem que:

  • o monte descrito por Caminha poderia corresponder ao Monte Serra Verde, localizado em João Câmara (RN);
  • o rio mencionado na carta coincidiria com o rio Punaú, que deságua na praia de Zumbi, em Rio do Fogo, a cerca de 72 km de Natal.

Segundo os autores, a geografia desse trecho do Rio Grande do Norte se encaixa com precisão nas referências topográficas e nas medidas observadas pela tripulação portuguesa.

Debate histórico reacendido

A hipótese, porém, não é consensual. Estudos anteriores sustentam que a descrição de Caminha corresponde mais fielmente ao litoral sul da Bahia, tradicionalmente reconhecido como local da chegada. Esses trabalhos argumentam que a maioria dos mapas e documentos do período reforçam a versão clássica, além de apontarem limitações nos métodos de reconstrução de rota.

Chesman e Furtado afirmam que seu objetivo não é negar a historiografia consolidada, mas trazer novas ferramentas científicas para o debate. Eles defendem que a interdisciplinaridade — unindo física, história, geografia e modelagem computacional — permite lançar luz sobre lacunas que os documentos do século XVI não conseguem esclarecer sozinhos.

Embora a proposta não seja definitiva, o estudo amplia o campo de investigação sobre a formação territorial brasileira e reforça que a chegada de Cabral pode ter sido mais complexa do que usualmente se ensina. A pesquisa deve estimular novos levantamentos acadêmicos e confrontos de dados.

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