Operação Condor: o que foi, sua história e impacto na América Latina
O século XX foi marcado por revoluções populares, e as ditaduras latino-americanas foram o projeto norte-americano para contê-las.
O século XX não seria o mesmo após outubro de 1917. A tomada do poder pelos bolcheviques na Rússia, sob a liderança de Lênin, materializou um fantasma que assombrava as classes dominantes desde o Manifesto Comunista de 1848: a revolução proletária. Pela primeira vez, uma nação retirava-se do sistema capitalista mundial e erguia um Estado baseado no domínio do proletariado. Para as potências ocidentais, não era apenas uma mudança de governo; era uma declaração de guerra ideológica, econômica e existencial.
Esse temor, inicialmente contido à espera de um colapso soviético que nunca veio, transformou-se em pavor diante dos feitos subsequentes da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). Sob o comando de Stálin, o país foi bem-sucedido em uma industrialização acelerada, saindo vitorioso e fortalecido da Segunda Guerra Mundial (1939–1945). Emergindo como superpotência nuclear e rival direta dos Estados Unidos, a Guerra Fria foi uma consequência direta desse conflito ideológico em formação — um embate global indireto travado nas arenas ideológica, tecnológica (como a Corrida Espacial) e militar. O mundo capitalista via, impotente, sua hegemonia ser desafiada por um modelo alternativo que visava acabar com a concentração de poder e com a desigualdade.
O golpe de 1964 e a doutrina de segurança nacional
Antes mesmo da Operação Condor, o Brasil serviu como um laboratório para a aplicação da Doutrina de Segurança Nacional (DSN). Desenvolvida nas Escolas das Américas, no Panamá, com forte influência dos EUA, a DSN via o "inimigo interno" – o comunista, o subversivo – como uma ameaça maior que uma guerra externa. O golpe militar de 1964, apoiado logística e diplomaticamente pelos Estados Unidos, foi justificado para "salvar o país do comunismo" após as Reformas de Base do governo João Goulart.
A ditadura brasileira (1964-1985) foi a primeira a implementar um aparato sistemático de repressão política, servindo depois de modelo para seus vizinhos. Órgãos como o DOPS (Delegacia de Ordem Política e Social) e, posteriormente, o DOI-CODI (Destacamento de Operações de Informações - Centro de Operações de Defesa Interna) tornaram-se centros de tortura, interrogatório e sequestros. Técnicas como o "pau de arara", choques elétricos e afogamento simulado foram rotina. O número de mortos é incerto e difícil de definir e os desaparecidos e torturados chegam na casa dos milhares.
Cuba e a via chilena para o socialismo
Em 1959, a vitória de Fidel Castro e Che Guevara em Cuba representou a mais direta e bem-sucedida afronta aos Estados Unidos em seu próprio hemisfério. A Crise dos Mísseis (1962) consolidou Cuba como um Estado socialista sob a proteção soviética.
Enquanto isso, no Chile, um processo democrático alarmava Washington: a eleição de Salvador Allende, em 1970. Allende propunha a chamada “via chilena para o socialismo”, um caminho revolucionário pela via pacífica e eleitoral. Seu governo promoveu nacionalizações de setores-chave, como o cobre, e profundas reformas sociais. Para os EUA e as elites chilenas, tratava-se de uma “Cuba por via legal”. O presidente Richard Nixon ordenou que a economia chilena “gritasse”, promovendo um boicote econômico internacional e financiando greves e movimentos de oposição.
(foto: wikipédia)
A Operação Condor
O golpe que derrubou Allende em 11 de setembro de 1973, liderado pelo general Augusto Pinochet, foi a culminação desses esforços. A brutalidade do novo regime chileno foi imediata e chocante. O Estádio Nacional foi transformado em um campo de concentração onde milhares foram detidos, torturados e executados. A DINA (Dirección de Inteligencia Nacional), a polícia secreta de Pinochet, tornou-se um dos braços mais letais da repressão no continente.
Foi a DINA, sob a liderança de Manuel Contreras, quem tomou a iniciativa de formalizar uma aliança com seus pares. Em uma reunião secreta em Santiago, em novembro de 1975, nasceu oficialmente a "Operação Condor". Seus membros fundadores foram Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai.
Sua operação era sinistramente eficiente:
- Cooperação Informacional: Os países membros compartilhavam informações sobre "subversivos" através de um sistema de comunicação centralizado.
- Perseguição Transnacional: Agentes de um país podiam perseguir, sequestrar, torturar e assassinar cidadãos de outras nações membros. Oficiais uruguaios, por exemplo, atuavam livremente em Buenos Aires.
- Assassinatos Seletivos: O Condor foi responsável por centenas de desaparecimentos e assassinatos. O caso mais emblemático foi o ataque terrorista com carro-bomba que matou o ex-chanceler chileno Orlando Letelier e sua secretária Ronni Moffitt em Washington D.C., em 1976, um crime ordenado pela DINA em solo norte-americano.
(foto: wikipédia)
Brasil, Chile e Argentina
O regime militar brasileiro foi um dos principais pilares intelectuais e logísticos da Operação Condor. Os DOI-CODI de São Paulo e do Rio de Janeiro desempenharam papel ativo na perseguição a exilados políticos. Um dos episódios mais emblemáticos foi o sequestro dos militantes uruguaios Lilian Celiberti e Universindo Díaz, em Porto Alegre (1978), realizado por agentes brasileiros e uruguaios — uma operação revelada por acaso por um repórter.
No Chile, a repressão assumiu proporções devastadoras. Estima-se que mais de 3 mil pessoas foram mortas ou desapareceram durante a ditadura de Augusto Pinochet (1973–1990), além de dezenas de milhares de casos de tortura. Locais como Villa Grimaldi e a Colônia Dignidad — um enclave alemão convertido em centro de tortura — tornaram-se símbolos duradouros do terror.
Na Argentina, o golpe de 1976 levou a violência estatal a um patamar industrializado. Aproximadamente 30 mil pessoas desapareceram durante a chamada “Guerra Suja”. Centros clandestinos de detenção, como a ESMA (Escola de Mecânica da Armada), funcionavam como verdadeiras fábricas da morte. Presos eram drogados e lançados ao mar nos conhecidos “voos da morte”. A ditadura argentina foi, possivelmente, a mais sanguinária entre os integrantes da Condor.
Com o fim das ditaduras e o avanço da redemocratização na década de 1980, a rede começou a se desintegrar. Ainda assim, o legado de trauma, impunidade e famílias destruídas permanece. A abertura gradual de arquivos secretos e os julgamentos tardios de alguns responsáveis têm revelado fragmentos de verdade e justiça, mesmo décadas depois.
A Operação Condor não foi um desvio isolado, mas a institucionalização do terror de Estado como estratégia continental. Seu propósito era eliminar, a qualquer custo, a “ameaça” da revolução popular, garantindo que a hegemonia capitalista liderada pelos Estados Unidos jamais fosse desafiada novamente em solo latino-americano.