enigma da história

Encontrado morto sem nome, carregava um código misterioso e deixou um enigma que dura 77 anos

Fragmento de poema persa, mala sem dono e código indecifrável compõem o caso que completa hoje (1/12) mais um ano sem respostas

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Professor, jornalista e pesquisador em teorias da democracia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Escreve para Revista Fórum, com foco em temas de sustentabilidade, política e cultura.
Encontrado morto sem nome, carregava um código misterioso e deixou um enigma que dura 77 anos
Os detetives apresentam a mala e seu conteúdo, janeiro de 1949. Wikipedia

O enigma do chamado “Homem de Somerton” atravessou quase oito décadas até que pesquisadores conseguissem revelar quem era o homem encontrado morto em uma praia de Adelaide em 1º de dezembro de 1948. O corpo, impecavelmente vestido e sem qualquer documento, trazia apenas um papel com a expressão persa “tamam shud”, retirada do livro Rubaiyat, localizado depois em um carro próximo.

Sem marcas de violência e com uma autópsia que apontou apenas congestão nos órgãos e hemorragia gástrica, o caso logo alimentou teorias que iam de suicídio a espionagem. A descoberta de uma mala na estação ferroviária, com roupas sem etiquetas e ferramentas de eletricista organizadas com cuidado, reforçou a suspeita de que o homem levava uma vida repleta de segredos.

No exemplar do Rubaiyat encontrado pela polícia, havia uma sequência de letras escritas à mão, vista como um possível código. Um telefone anotado no livro levou à enfermeira Jessica Thompson, que morava perto da praia e negou conhecer o morto, embora parecesse nervosa ao ser questionada.

Imagem do homem morto não identificado encontrado na praia de Somerton, Adelaide, na manhã de 1 de dezembro de 1948. Foto: Wikipedia

A polícia tentou por meses identificar o homem, sem sucesso. Impressões digitais, moldes faciais e fotos foram comparados a bancos de dados nacionais e internacionais, mas nenhuma correspondência foi encontrada. O corpo ficou embalsamado por meses e um molde de gesso foi guardado como última esperança de reconhecimento futuro.

Somente em 2022, com o avanço de técnicas de genealogia genética, o professor Derek Abbott e a especialista Colleen Fitzpatrick reconstruíram o DNA a partir de fios de cabelo preservados desde 1948. Eles identificaram o homem como Carl “Charles” Webb, engenheiro elétrico de Melbourne, nascido em 1905. Documentos revelam que ele vivia isolado após um divórcio e tinha histórico de poemas sobre morte, mas nada explicava o enigmático código ou sua viagem a Adelaide.

A causa de sua morte permanece incerta: veneno, suicídio ou morte acidental continuam hipóteses abertas. O código encontrado no livro jamais foi decifrado. Mesmo com a identidade confirmada, o caso segue como um dos mistérios criminais mais intrigantes do século 20, marcado por simbolismo, coincidências e o clima de desconfiança típico da Guerra Fria.

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