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13 de julho de 2018, 18h31

Imigrantes x neonazistas: uma final que ficará para a História

Dificilmente uma vitória da França sobre a Croácia fará prevalecer o ideal de inclusão na Europa, até porque esse ideal que há no esporte é muito mais discurso de marketing que humanitarismo. Mas precisamos pressionar, cunhar um conceito de civilização que inclua e não afaste

Para Norbert Elias, um dos sociólogos alemães mais conceituados do século XX, o esporte é fruto do processo civilizador, das elites que passaram a identificar como bárbaro as guerras e os duelos entre cavalheiros. Mas observa que esse controle da violência, da brutalidade, não é uma característica eterna da raça e da etnia das nações civilizadas, mas o resultado de um desenvolvimento social específico que culminou no “controle social diferenciado e estável dos meios de violência” e que, portanto, “este tipo de desenvolvimento social podia ser invertido”.1

Para o autor essa inversão ocorreu nas atrocidades cometidas pelos nazistas. Contudo, precisamos ressaltar que o desporto ganhou espaço entre as nações civilizadas justamente no período em que estas expressavam um imenso cultivo do ódio, como destaca o historiador inglês Peter Gay. Os finais do século XIX e o início do XX foram o período da ascensão racista que desembocou no nazismo do período entre guerras.

Aqui no Brasil, por exemplo, Lima Barreto criticava a distinção de raça que vedava aos negros a participação nos grandes clubes, usando um termo comum do imperialismo inglês: “É o fardo do homem branco: surrar os negros, a fim de trabalharem para ele. O foot-ball não é assim: não surra, mas humilha, não explora, mas injuria e come as dízimas que os negros pagam”.2

Na década de 1930, a presença de Leônidas da Silva no selecionado brasileiro acarretou um certo rancor da elite branca. O jogador foi acusado de roubar uma joia de uma dama, “que alega ter sido a mesma achada por Leônidas e não restituída”, dizia a imprensa da época. O historiador Leandro Pereira destaca: “lançado sobre ele o preconceito que denunciara, que fazia de negros como ele os suspeitos potenciais de todo o tipo de crime”.3

As demonstrações de racismo chegaram à gota d’água em um jogo entre Bonsucesso e América, quando o jogador, sendo vaiado pela torcida que o chamava de “moleque, preto sem vergonha, negro sujo”, irritou-se e acabou por “responder a torcida mostrando-lhe seus órgãos genitais”.4

O curioso é que Leônidas mostrou seu futebol em campo na Copa da França de 1938 e recebeu o nome de “Diamante Negro”, forçando a imprensa parisiense a exaltá-lo: “Cabelos esticados, pele escura como grão de café torrado, pequeno corpo. Mas sua vivacidade é verdadeiramente desconcertante, sua velocidade insuperável. (…) Quando Leônidas faz um gol, pensa-se estar sonhando, esfregam-se os olhos”.5

O antropólogo Roberto Da Matta acredita que abrasileiramos o futebol, pois introduzimos a mistura em um selecionado para disputar a copa. “O Pelé falou recentemente que na Copa de 1958 ele estranhou que só o nosso time tivesse negro. Hoje não é assim, se você pegar os selecionados, vê que está tudo misturado. Misturado por causa disso: nós de certo modo abrasileiramos o futebol mundial”, disse em entrevista à Revista de História da Biblioteca Nacional.6

Mas essa mistura não é tão harmoniosa assim, como parece acreditar o antropólogo. O pensamento retrógrado e conservador ainda está atrofiado em eras antigas, impedindo a explosão do novo. E a manifestação do que impulsionou as atrocidades nazistas ainda estão presentes no futebol.

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Elias acredita que esse autodomínio dos impulsos violentos tornam-se frágeis e instáveis, em um período de violência política, isto é, quando Estados nacionais entram em conflito7. E a crise migratória atual desperta esse elemento político, principalmente o voltado ao sentimento de nação.

Esse sentimento de superioridade parece estar representado nos jogadores da Croácia que resgatam as saudações nazistas e os gritos ultranacionalistas. Alias, o nazismo está presente nas torcidas de futebol europeias há anos, como no caso do Combate 18, movimento neonazista inglês, que recrutava skinheads e hooligans para as suas fileiras8, e na Itália, onde os torcedores ultras despejam o seu ódio contra os jogadores imigrantes.

Mas como estes se comportarão perante a habilidade dos jogadores franceses descendentes de imigrantes, como Mbappé, Pogba e Kanté? Parece-me que os negros irão vislumbrar a imprensa europeia, como aconteceu com o nosso Leônidas na Copa de 1938. Parece que os negros irão desbancar os nazistas, como fez Jesse Owens na Alemanha de Hitler nas Olimpíadas de 1936.

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Mas mesmo com a vitória francesa, muito deve ser discutido e pensado para concretizar o ideal “civilizatório” de paz e não agressão para o qual o desenvolvimento social do ocidente dizia (e ainda diz) estar caminhando. Dificilmente a possível vitória da França fará prevalecer o ideal de inclusão na Europa, até porque esse ideal que há no esporte é muito mais discurso de marketing que humanitarismo. Mas precisamos pressionar, cunhar um conceito de civilização que inclua e não afaste.

1 ELIAS, N. Em busca da excitação. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1990. P. 213.

2 PEREIRA, Leonardo Affonso. Footballmania: uma história social do futebol no Rio de Janeiro, 1902-1938. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000. p. 225.

3 Id. P. 321

4 Id. P. 322.

5 FRANZINI, Fábio. Quando a pátria calçou chuteiras. In: RHBN, ano 1, n. 7, jan. 2006. p. 23.

6 In: RHBN, ano 1, n. 7, jan. 2006. p. 47.

7 ELIAS, p. 197.

8 CLARKE-GOODRICK, Nicolas. Sol negro. São Paulo: Madras, 2004. P.62.