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31 de julho de 2018, 11h13

Impressões nada sérias sobre a FLIP

Crônica de Tomaz Amorim Izabel sobre a FLIP 2018, suas impressões do Centro Histórico de Paraty e a programação diversa da festa

Escrevo com os pés ainda doendo e com as batatas das pernas cozidas de caminhar por dois dias pelas pedras grandes, tão bonitas e tão cansativas para nós, os não caiçaras, que visitam Paraty durante sua Festa Literária Internacional – a FLIP. Paraty, este braço único de Minas Gerais que chega até o mar, local onde se despejava todo o ouro e prata escavado por mãos negras nas cidades coloniais, rumo aos cofres portugueses de além-mar. História vivíssima no rosto de sua população negra e na voz como a de um homem negro, retinto, forte, sem camisa, vestindo calças brancas e sujas, que eu vi contando em performance, de cima de uma pedra, em frente da igreja, de costas para o mar, a história dos seus antepassados.

Paraty, onde se encarna também a contradição tão desconcertante da arquitetura barroca brasileira: a ingenuidade de suas casinhas brancas, de ângulos retos e contornadas pelos coloridos mais infantis; e o inferno arabesco das igrejas adornadas de ouro, caveiras e ultimatos em latim. Mas o barroco de Paraty tem como moldura algo de invejar o céu azul e infinito das Minas Gerias: o mar carioca e suas serras em diversas profundidades. Se, como nós do centro de São Paulo costumamos dizer, São Paulo tem seus ângulos – quando o Minhocão, bem antes de fazer a curva final chegando à Igreja da Consolação, segue uma reta imaginária rejuntando-se à São João embaixo dele até o prédio do Banespa depois do Anhangabaú! – se São Paulo tem seus ângulos, no centro histórico de Paraty a busca é por visões que não sejam reconfortantes, eternas, vivas. É difícil encontrar um ângulo feio entre seus becos e os azuis e verdes e vermelhos (das flores que vão aos poucos, como em um livro infantil, colonizando os tetos de tijolinho das casas), difícil não se amolecer pela junção não só plástica da arquitetura com a natureza, mas às vezes também literária: Rua do Fogo, Rua Fresca, Rua Dona Geralda (nome da minha avó)…

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Mas sim, há muito de sério para se falar da FLIP. E estes graus de seriedade variam sobretudo de acordo com a letra de FLIP no qual se deseja focar. A mídia fala do I de Internacional, a academia do L de Literária, os geógrafos e historiadores de P de Paraty. Já eu, este ano, foquei foi no F de festa, por isso nem vou me arriscar a comentar com seriedade as mesas bonitas que aconteceram.

Como desci para Paraty de carro com amigos poucas horas depois de depositar o trabalho de quatro anos e meio, minha tese de doutorado em Teoria Literária, fui para esta FLIP com um projeto muito sólido, uma tenacidade declarada, um esforço muito grande em prestar atenção apenas nas coisas absolutamente desimportantes, como descobrir qual Jorge Amado – uma caipirinha de Gabriela, pinga local de cravo e canela, acompanhada ainda de maracujá – era o melhor do centrinho, qual tom de cor de rosa dos barquinhos no Cais de Madeira me agradava mais, qual sotaque nas rodinhas de SLAM era o mais bonito da língua portuguesa (o pernambucano segue imbatível), em qual casinha eu me aposentaria e escreveria poesia como Alberto Caeiro ou prosa como Valter Hugo Mãe.

No mais, para quem vive de estudar literatura na universidade como eu, o aspecto festa do literário é mais sedutor. Já estão de bom tamanho os CLIPs e SLIPs, congressos e seminários literários! Discutir literatura tomando um Jorge Amado é mais fluido, talvez menos preciso, mas certamente mais saboroso. Se embaixo de uma lua cheia e vermelha e eclipsante como a que adornou o céu de Paraty, ainda melhor. Mas apesar de tudo isso, a mente é rebelde, não para, precisa problematizar e pensar, por isso certos deslizes me fizeram chegar a um ou dois comentários rápidos sobre a festa deste ano que eu gostaria de compartilhar aqui.

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Esta foi a terceira FLIP em que eu fui e, de longe, a que eu mais gostei. Desde o ano passado há uma nova curadora, Joselia Aguiar, que conseguiu fazer na festa o que se precisa fazer na cena literária brasileira em sentido amplo: democratizá-la, abrir espaços, reconhecer diferenças e incentivar trocas, estabelecendo parcerias. Ela começou ano passado, por exemplo, com política de paridade entre autores homens e mulheres na programação, além de uma cota mínima de autores negros. Se isso não resolve o machismo e o racismo na literatura, certamente vai em sentido contrário a eles, os problematiza e gera resultados também positivos, visibiliza autores e produções que, não por falta de mérito literário, não recebiam a atenção devida. Isso também não resolve o mundo fora da literatura e os problemas estruturais da sociedade brasileira, embora se coloque em resistência contra eles, como no caso de racismo perpetrado em uma das noites pelo editor da EDUC (e, sintomaticamente, ex-curador do Prêmio Jabuti) contra uma mulher negra em uma das casas que terminou, felizmente, como se deve: com denúncia e na delegacia.

Isso tudo precisaria ser comentado com cuidado, não fosse a promessa deste texto, desde o título, de não falar de coisas sérias. Eu deixo então uma impressão que, me parece, ajuda a sintetizar o bom espírito deste ano e o gesto principal por trás dele: se em 2007, na primeira FLIP que eu fui, havia uma hostilidade declarada entre a Programação Oficial (com maiúsculas mesmo!) e as trupes independentes que se aproveitavam da tenda ali para também apresentar seus trabalhos – um salve para o poeta Pedro Tostes que, salve engano, vi ali pela primeira vez, recitando heroico seus poemas de cima de um banquinho e ousando vender seus livros logo na entrada da tenda principal para ser tristemente expulso pelos seguranças em defesa das Editoras, com E maiúsculo, que tinham pago para estar na Festa – nessa, a organização do evento teve a grandeza de estabelecer parcerias com as outras casas, abrindo, misturando e entrecruzando públicos, projetos editoriais, interesses, concepções mesmo do que a literatura é e pode ser. A riqueza que essa parceria bonita produziu, na lógica oposta àquela reinante do mercado, que só quer monopólio e competição, ficou evidente para quem pôde visitar a festa. As programações paralelas das diversas casas se somaram à principal e produziram uma que curadoria nenhuma daria conta sozinha. Foi uma festa, neste sentido, plural e exemplar. Que as feiras literárias continuem se alastrando pelo país, principalmente, a partir da base, das pequenas editoras, dos novos autores, dos velhos e novos olhares que mantêm a literatura viva – por fora da lógica do mercado que concentrou a literatura durante tantos anos e hoje quebra editoras e livrarias pelo país.

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Outro comentário sério, mas mais impressionista, já que não tenho informação oficial, é a presença dos locais, de quem vive em Paraty e não apenas a visita na festa. Não sei se é mérito da organização, lembro que na divulgação da programação deste ano a curadora falou de parcerias com escolas locais. O fato é que tanto os artistas locais apareceram em programações das casas, como o pessoal do hot dog e da deliciosa comida caseira pôde fazer um dinheiro extra sem serem importunados, pelo menos pelo que eu vi. Isso tudo é básico, evidente, necessário, mas como se sabe, no Brasil, raridade, já que o colonizador quer o morador local servindo na festa, não participando dela. De qualquer forma, senti uma inveja gigantesca destes jovens que podem ir paquerar de noite na festa da cidade, cercados de gente de lá e de fora, embriagados, recitando poesia, tocando maracatú, discutindo os prazeres e palavrões de Hilda Hilst – sem demérito, claro, para a Festa da Orquídea de Poá, minha cidade natal, a Festa do Caqui de Mogi das Cruzes, a Festa da Pamonha de Jacareí, etc…