Raphael Silva Fagundes

24 de junho de 2019, 06h00

Lacaios do capital: os três poderes e as revelações de Greenwald

O material que veio a público através do jornalista Glenn Greenwald, traz esperança para a esquerda liberal, mas desvirtua a luta real. Isso porque cria uma esperança pautada na moralidade jurídica, a mesma que sabia de tudo e prendeu Lula mesmo assim

Moro e Glenn Greenwald (Montagem)

O filósofo marxista Ernst Bloch desconsidera toda filosofia que se baseia no passado. “Da descoberta leibniziana do subconsciente, passando pela psicologia romântica da noite e do passado primevo, até a psicanálise de Freud, basicamente, até agora, só a ‘aurora para trás’ foi descrita e analisada”.[1] Para Bloch, ainda não havia sido descoberto, até Marx, “que, em todo o presente, mesmo no que é lembrado, há um impulso e uma interrupção, uma incubação e uma antecipação do que ainda não veio a ser”.[2]

Não são os sentimentos da infância, ou do passado, que leva os seres humanos a ação, mas a esperança, o “que-ainda-não-veio-a-ser”. Foi Marx que, filosoficamente, descobriu isso. “Desde Marx não existe mais investigação da verdade e nem juízo realista que possam esquivar-se dos conteúdos subjetivos e objetivos da esperança do mundo – a não ser sob pena de trivialidade ou de beco sem saída”.[3]

O material que veio a público através do jornalista Glenn Greenwald, traz esperança para a esquerda liberal, mas desvirtua a luta real. Isso porque cria uma esperança pautada na moralidade jurídica, a mesma que sabia de tudo e prendeu Lula mesmo assim. Mesmo com todas essas provas, o judiciário soltaria Lula? Reconvocaria o povo para uma nova eleição?

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Essas provas despertam no povo que deseja a liberdade um sentimento lindo de esperança, mas ela é muito mais fictícia que real conhecendo o judiciário que temos. É um sentimento de esperança que nos faz esperar apenas, esperar que os mesmos que condenaram Lula possam liberta-lo, os mesmos que coniventes com diversas irregularidades do último pleito eleitoral revoguem todo o processo e marquem uma nova eleição.

Não há problema algum em sonhar, mas como disse Lenin, somente “quando existe contato entre o sonho e a vida, então tudo vai bem”. E é exatamente a falta desse contato que podemos observar. O sonho de a justiça ser feita por aqueles que negligenciaram a vilania, a injustiça escandalizada que levou o país a ser controlado por entreguistas arrogantes e boçais, não pode fazer parte da esperança da esquerda.

Posso estar enganado (e nunca ficaria mais satisfeito por estar enganado), mas no próximo julgamento do habeas corpus de Lula (que foi adiado), não teremos muitas surpresas. Embora a conversa entre o juiz e o ministério público seja uma prova cabal de violação e corrupção do processo que incriminou o maior líder político do país, as classes dominantes jamais estariam do lado da Justiça em vez do projeto de poder que tanto esperaram ver predominar no país. Eles realizaram a própria utopia através da ação, não esperaram por ninguém. Moveram-se.

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Sendo assim, apenas a marcha perseverante ombro a ombro contra esse projeto de poder que se instalou no Planalto da Alvorada e em diversos estados do país que pode pô-lo abaixo. A solução não virá do judiciário, legislativo ou do executivo, mas das ruas. Não podemos esperar por justiça, precisamos fazê-la.

[1] BLOCH, Ernst. O princípio esperança. Rio de Janeiro: Contraponto, 2005. P. 22.

[2] Id.

[3] Id. P. 17.