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23 de abril de 2015, 10h48

Lincoln Secco: o que a oposição quer é o impeachment de Lula

A direita moderada parece se contentar com suas fortalezas estaduais, as prefeituras e os cargos que o próprio PT lhe oferece. Mas aqueles que projetam no petismo suas frustrações individuais não podem fazer isso e sonharão com golpes de mão o tempo todo. Um processo assim seria o verdadeiro teste da nossa democracia racionada

A direita moderada parece se contentar com suas fortalezas estaduais, as prefeituras e os cargos que o próprio PT lhe oferece. Mas aqueles que projetam no petismo suas frustrações individuais não podem fazer isso e sonharão com golpes de mão o tempo todo. Um processo assim seria o verdadeiro teste da nossa democracia racionada Por Lincoln Secco, especial para o Viomundo As manifestações da Direita arrefeceram por enquanto. É  que a  classe média age só por impulso, especialmente no outono, quando se irrita com a declaração do imposto de renda. Ah, é claro que a corrupção é que traz as...

A direita moderada parece se contentar com suas fortalezas estaduais, as prefeituras e os cargos que o próprio PT lhe oferece. Mas aqueles que projetam no petismo suas frustrações individuais não podem fazer isso e sonharão com golpes de mão o tempo todo. Um processo assim seria o verdadeiro teste da nossa democracia racionada

Por Lincoln Secco, especial para o Viomundo

As manifestações da Direita arrefeceram por enquanto. É  que a  classe média age só por impulso, especialmente no outono, quando se irrita com a declaração do imposto de renda.

Ah, é claro que a corrupção é que traz as pessoas às ruas. Afinal, para elas a corrupção explica o déficit público, o filho de Lula é dono da Friboi e a crise econômica é resultado do número de ministérios do governo.

Mas a corrupção é apenas a maneira como se explica à classe média o processo político do país. Como ela é uma classe que não se organiza, seu comportamento social é infantilizado. Ela pode ir à direita ou à esquerda, dependendo da conjuntura. Na atual, ela tende ao golpismo e a crise econômica lhe dá razões materiais para isso. Só não imagina que seus representantes no Congresso agravariam ainda mais o seu padrão de vida, a começar pela terceirização de seus empregos.

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Golpe

Uma tentativa de golpe não poderia hoje ser apoiada por uma força armada, como em 1932 ou 1964. E a Direita sabe que mandar seus filhos às ruas não adianta. Ela continua com um problema real. Historicamente, partidos como UDN, PSDB ou DEM não vencem porque seu programa é impopular para um país que ainda exibe um abismo social entre ricos e pobres. Eventualmente, um inepto como Dutra ou um aventureiro como Jânio ou Collor vencem, mas não duram ou não fazem sucessores.

À UDN sobrava o golpismo. Os tucanos de São Paulo, por outro lado, parecem não aceitar o lacerdismo de Aécio, nascido em Minas, mas naturalizado na Guanabara sem saber que aquele Estado não existe mais. O governador paulista talvez prefira ele mesmo ser o desafiante em 2018.

Genuflexo

Por seu turno, o PT está de joelhos e já ofereceu tudo para continuar no governo: “compreendeu o civismo” de quem  saiu às ruas pedindo a sua cabeça; entregou o comando da economia a um chicago boy e o da política aos corruptos de sua base no congresso. Por fim, deu até a garantia de que terá menos dinheiro para fazer campanha (ao tomar a medida certa de recusar doações de empresas). Bastará?

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O fator Lula

O que no fundo da alma a oposição deseja não é derrubar agora Dilma. Como o leitor e a leitora poderão ver a seguir, o custo disso seria muito alto, embora não impensável.

A faca no pescoço de Dilma só faz sentido se o PT não for competitivo em 2018. Como sabemos que para os trabalhadores até que surja alternativa real à esquerda, “ruim com o PT, pior sem ele”, o  bloco oposicionista quer mesmo é acabar com Lula.

A operação está em andamento. Enquanto o líder se cala, o judiciário continua a selecionar todas as pessoas que um dia foram próximas dele. Não sabemos se Lula poderá ser candidato em 2018 e a oposição também não. Por isso, o ideal seria torná-lo inelegível. Prendê-lo talvez fosse demais e teria o mesmo simbolismo de um impeachment, só que retrospectivo.

Muitos membros da polícia federal ou do judiciário são pessoas de classe média, vivenciaram 13 anos de TV Globo e Revista Veja e compartilham sua visão de mundo nos almoços familiares de domingo. Para eles, a história recente se explica por uma organização criminosa que se apossou do poder e não por um processo social que levou o PT ao governo.

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Como seria o Brasil?

A Direita moderada parece se contentar com suas fortalezas estaduais, as prefeituras e os cargos que o próprio PT lhe oferece. Mas aqueles que projetam no petismo suas frustrações individuais não podem fazer isso e sonharão com golpes de mão o tempo todo. Um processo assim seria o verdadeiro teste da nossa democracia racionada. Um hipotético impeachment destruiria a imagem internacional do Brasil por muitos anos, acabaria de vez com as instituições representativas e geraria um caos social incontrolável.

Há quem sonhe com um país sem PT, sem sociais democratas, sem legislação trabalhista, sem sindicatos, sem direitos humanos. Até que a polícia chute a sua porta na calada da noite, como de resto já faz com os pobres todos os dias.

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