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10 de março de 2019, 15h17

Luiz Antônio Simas: “Enredo da Mangueira é contraponto ao projeto obscurantista do ‘escola sem partido'”

"Leandro fez uma grande homenagem a diversos professores e professoras brasileiras que nadam contra a corrente, correm atrás de informações sabe-se lá como, em virtude de inúmeras precariedades, e levam, não sem enormes dificuldades, alguns desses personagens silenciados para a sala de aula", diz o historiador

Último carro, com os livros e os professores, no desfile da Mangueira (Reprodução)
Luiz Antônio Simas Luiz Antônio Simas é historiador, mestre em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e uma das pessoas consultadas pelo carnavalesco Leandro Vieira Jr. para a construção do enredo “História pra Ninar Gente Grande”, que levou a Estação Primeira de Mangueira ao seu 20º título do Carnaval carioca. Em sua página no Facebook, na quinta-feira (7), Simas, como é carinhosamente chamado, sintetizou o que a escola campeã do carnaval carioca levou para a avenida. Segundo ele, “o enredo da Mangueira é um contraponto ao projeto obscurantista do ‘escola sem partido’ “O enredo em nenhum momento diz que...

Luiz Antônio Simas

Luiz Antônio Simas é historiador, mestre em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e uma das pessoas consultadas pelo carnavalesco Leandro Vieira Jr. para a construção do enredo “História pra Ninar Gente Grande”, que levou a Estação Primeira de Mangueira ao seu 20º título do Carnaval carioca.

Em sua página no Facebook, na quinta-feira (7), Simas, como é carinhosamente chamado, sintetizou o que a escola campeã do carnaval carioca levou para a avenida. Segundo ele, “o enredo da Mangueira é um contraponto ao projeto obscurantista do ‘escola sem partido’

“O enredo em nenhum momento diz que esses personagens estão fora das salas de aula. Pelo contrário. Eles estão nas salas de aula sim, levados por professoras e professores de História do ensino público e privado comprometidos com visões plurais que questionem protagonismos viciados no ensino da História e coloquem o povo brasileiro como sujeito, e não objeto, da sua história”, relata.

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Leia o artigo de Luiz Antônio Simas na íntegra

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Deixa eu dizer uma coisa importante: eu acho que o enredo da Mangueira não procurou contar a história dos heróis ignorados nas escolas, como li aqui. Não é isso. A maioria das professoras e professores de História não ignoram os personagens que Leandro traz.

Fui um dos professores consultados pelo Leandro para a elaboração do enredo desde o início. Não é segredo porque ele mesmo falou isso em entrevistas. Batemos, por exemplo, um longo papo quando o enredo estava sendo pensado, numa mesa do Bode Cheiroso. Foi uma tarde intensa e de cara fiquei muito impressionado com a ideia do carnavalesco. Trocamos ideias ao longo do processo de elaboração do carnaval e posso garantir: Leandro leu muita coisa produzida na academia, conversou com vários professores, e o resultado está aí.

Desde o início é evidente o seguinte: o enredo não se colocou contra a academia. Ao contrário, o enredo bebe na fonte de estudos acadêmicos da maior seriedade, como, para ficar em um exemplo, os do professor João José Reis sobre a Revolta dos Malês. Além disso, recorre a pesquisadores que, fora da academia, também realizam trabalhos notáveis. É só verificar as referências bibliográficas da sinopse divulgada publicamente. Nenhum de nós, que minimamente colaboramos, embarca no discurso de demonização da universidade pública, como certa moda anti-intelectual pretende divulgar. O enredo da Mangueira existe porque a universidade pública brasileira existe e produz as reflexões que possibilitaram esse desfile.

O enredo em nenhum momento diz que esses personagens estão fora das salas de aula. Pelo contrário. Eles estão nas salas de aula sim, levados por professoras e professores de História do ensino público e privado comprometidos com visões plurais que questionem protagonismos viciados no ensino da História e coloquem o povo brasileiro como sujeito, e não objeto, da sua história.

O último carro da Mangueira homenageava professoras e professores de História, com textos críticos deles sobre personagens consagrados da História do Brasil. A pedido do Leandro, fui que que fiz a ponte, por exemplo, com as professoras que contribuíram com textos sobre a Princesa Isabel e o Padre Anchieta; Thais Bastos e Dani Jardim. Uma da rede municipal do Rio, outra da rede municipal de Magé.

O enredo da Mangueira, imaginado, concebido e desenvolvido por Leandro Vieira é um contraponto, isso está claro desde o início, ao projeto obscurantista do “escola sem partido”. A ideia surgiu ali.

Está longe de ser uma denuncia de que os personagens apresentados nunca são mencionados em salas de aula do Brasil. Pelo contrário: Leandro fez uma grande homenagem a diversos professores e professoras brasileiras que nadam contra a corrente, correm atrás de informações sabe-se lá como, em virtude de inúmeras precariedades, e levam, não sem enormes dificuldades, alguns desses personagens silenciados para a sala de aula, em defesa de um ensino público, universal e plural e do cumprimento da lei 10639. No fim das contas, cada professora e cada professor entram também na galeria mangueirense dos heróis que não estão emoldurados.

Essa foi a grande vitória da Mangueira no carnaval.

Luiz Antonio Simas

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