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15 de maio de 2018, 16h46

Luiz Cláudio de Santos: “Porque eu tive uma p. sorte…”

Eu defendo e luto por um lugar em que haja direitos e deveres iguais para todo(a)s, indiscriminadamente. Em que haja acesso à boa escola, à casa, à comida, a boas roupas. Um lugar onde as pessoas não dependam apenas de ter sorte

Foto: Reprodução/Facebook Por Luiz Cláudio de Santos* Pra não falar do(a) e/ou pelo(a) outro(a), falo de e/ou por mim: Meus pais separaram-se faltavam 10 dias pra eu completar 1 ano. Meu pai, Benedito, foi embora, mas ainda convivemos um quase nada. Minha mãe, Rita, foi embora e só a conheci já quarentão. Eu e dois irmãos mais velhos estaríamos jogados no mundo. Mas tivemos uma p. Sorte. A irmã do meu pai biológico, Otília, não podia ter filhos e decidiu, juntamente com seu marido, Joaquim, não largar essas crianças ao léu e dar-lhes uma vida decente. P. Sorte. Estudamos sempre...

Foto: Reprodução/Facebook

Por Luiz Cláudio de Santos*

Pra não falar do(a) e/ou pelo(a) outro(a), falo de e/ou por mim:

Meus pais separaram-se faltavam 10 dias pra eu completar 1 ano. Meu pai, Benedito, foi embora, mas ainda convivemos um quase nada. Minha mãe, Rita, foi embora e só a conheci já quarentão. Eu e dois irmãos mais velhos estaríamos jogados no mundo. Mas tivemos uma p. Sorte. A irmã do meu pai biológico, Otília, não podia ter filhos e decidiu, juntamente com seu marido, Joaquim, não largar essas crianças ao léu e dar-lhes uma vida decente. P. Sorte.

Estudamos sempre em escola pública, passamos mês inteiro a arroz, feijão, ovo e água. Mas tivemos educação e nunca passamos fome. O banheiro que usávamos tinha folha de jornal cortada, mas tomávamos banho de água quente. Cama quente pra dormir. P. Sorte.

Tive um quintal enorme pra brincar. Em frente à minha casa havia vala, pegava verme “sometimes”, mas minha mãe Otília cuidava de mim e eu sobrevivia. Perdi uns dentes porque meu pai Joaquim não podia pagar tratamentos, mas não fiquei desdentado. Sorte.

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Comecei a trabalhar aos 16. Tive pouquíssimas roupas, baratas, mas nunca fiquei pelado. Convivi com um monte de gente do mal, mas fiquei do bem. Sofri discriminação racial. Cheguei à faculdade. Tudo, sempre, sob altíssima pressão. Mas tive sorte. Hoje vivo em apto. próprio numa boa região da cidade. Tenho trabalhado razoavelmente bem.

Eu tinha tudo para odiar as pessoas das favelas e periferias. Não gostar de negros, de gays. Ser de alguma associação benemerente, que dá coisas que estão velhas para pessoas que nada tem. Tinha tudo pra adorar a polícia e as forças armadas. Ser contra a legalização do aborto, descriminalização das drogas, a favor da pena de morte. Tinha tudo pra votar em paulo roberto, joão paulo, paulo alexandre, geraldo, aécio, jair messias.

Por que? Porque eu tive sorte. Então, que se f. os outros, os pedintes, os desfavorecidos etc. e tal.

Mas aí é que está, essas pessoas, e são muitas, não tiveram a sorte que eu tive. Elas não tiveram e não têm escolha. Seria mais fácil dizer que isso é coisa do Deus, que o mundo é assim, mesmo. Não. Não é.

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Eu não sou assim. Eu defendo e luto por um lugar em que haja direitos e deveres iguais para todo(a)s, indiscriminadamente. Em que haja acesso à boa escola, à casa, à comida, a boas roupas, a excelentes atendimentos médico e hospitalar. Direito a trabalho bem remunerado. Direito a nascer e morrer dignamente. Para todo(a)s. Um lugar onde as pessoas não dependam apenas de ter sorte. Você que, como eu, teve toda essa sorte, pense nisso. Você, que me deu a honra de ler este texto até aqui, reflita. Só um pouquinho.

*Luiz Cláudio de Santos é músico

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