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28 de abril de 2019, 18h03

Lula e a cachaça são patrimônios nacionais que Bolsonaro despreza, mas não conseguirá apagar, por Paulo Pimenta

Alguém assim, com o viralatismo tão introjetado dentro de si, tem mais é que adular figuras como Trump e o Netanyahu mesmo, enquanto nós brindamos ao nosso povo e ao nosso futuro

Foto Lula Marques/Agência PT
Por Paulo Pimenta* Quando Bolsonaro “destila” todo seu preconceito e chama Lula de cachaceiro, ele simplesmente reproduz o desprezo que a elite escravocrata e imbecilizada sempre teve pelo Brasil real. Esse preconceito, em particular, faz parte do que popularmente é conhecido como síndrome de vira-lata. Nossa cachaça sempre foi atacada por ser um produto barato e acessível a qualquer trabalhador. Na época colonial, os portugueses, produtores e exportadores de vinho com longa tradição, difundiam amplamente a ideia que a cachaça era “bebida de pobre”, “bebida de escravos”, diziam que era um produto de baixa qualidade e também impediram a sua...

Por Paulo Pimenta*

Quando Bolsonaro “destila” todo seu preconceito e chama Lula de cachaceiro, ele simplesmente reproduz o desprezo que a elite escravocrata e imbecilizada sempre teve pelo Brasil real.

Esse preconceito, em particular, faz parte do que popularmente é conhecido como síndrome de vira-lata. Nossa cachaça sempre foi atacada por ser um produto barato e acessível a qualquer trabalhador.

Na época colonial, os portugueses, produtores e exportadores de vinho com longa tradição, difundiam amplamente a ideia que a cachaça era “bebida de pobre”, “bebida de escravos”, diziam que era um produto de baixa qualidade e também impediram a sua exportação para o mundo através da imposição de altos impostos.

A cachaça também é produzida a partir da cana-de-açúcar, num processo parecido com a produção do rum, que ganhou muita fama no Caribe. Os ingleses até tentaram plantar cana em suas terras para fabricar o rum, mas o clima e o solo não permitiram. Em compensação, os piratas a serviço da realeza desbravaram o mundo e tornaram-se célebres tendo sempre muito rum em seus navios, mas poderia ser a nossa cachaça.

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Os americanos, escoceses e irlandeses têm orgulho do seu uísque. Os ingleses têm como bebida nacional o gim. Os alemães e os tchecos são rigorosos e orgulhosos com suas cervejas. Os russos, os finlandeses e os poloneses têm na vodca um símbolo da sua cultura. Nenhum destes povos é estigmatizado por apreciar suas bebidas típicas que fazem parte da sua identidade.

Quando Bolsonaro pretende ofender Lula – sem sequer saber qual é a bebida preferida do presidente – ao associá-lo à cachaça, ele está apenas reproduzindo o velho desprezo das elites abastadas que atacam pobres, negros, nordestinos, índios, trabalhadores braçais e outros segmentos da nossa sociedade que sofrem com diversos tipos de preconceito e estereótipos. A lógica da construção de uma “ralé brasileira” no imaginário social sempre foi a de manter a dominação de classes.

Quando alguém é dependente químico de uma bebida ele é alcoólatra. Isso é uma doença, uma questão de saúde pública. Porém, se a bebida que causa essa dependência for alguma bebida “nobre”, a pessoa não é vítima do estigma que padece o “cachaceiro”.

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É no mínimo lamentável e pouco inteligente o presidente de um país que tem a caipirinha como drink mundialmente famoso – além da cachaça como um patrimônio nacional e produto de exportação de crescente demanda – tentar atacar alguém chamando-o de “cachaceiro”, já que não tem argumentos para responder às críticas políticas que recebe.

Alguém assim, com o viralatismo tão introjetado dentro de si, tem mais é que adular figuras como Trump e o Netanyahu mesmo, enquanto nós brindamos ao nosso povo e ao nosso futuro.

Viva à cachaça e aos cachaceiros! E beba com moderação.

*Paulo Pimenta é deputado federal (PT-RS) e líder do PT na Câmara

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