Monica Benicio

14 de março de 2019, 06h00

Lutar como Marielle é não abdicar da esperança

No momento em que as mortes de Marielle Franco e Anderson Gomes completam um ano, Monica Benicio diz: “Se hoje sigo na luta por justiça para ela é pela preservação de sua memória, por uma forma de ainda estarmos juntas”

Foto: Arquivo Pessoal

São 365 dias sem Marielle. Trezentos e sessenta e cinco dias em que a dor se tornou minha principal companhia, seguida da insistência em descobrir quem mandou matar minha esposa. Insistência, pois, garantir justiça no Brasil não é fácil. Nosso país é tomado pelo crime organizado, pelas milícias, pela corrupção, pelo alto encarceramento dos jovens negros, pelos assassinatos das LGBTs, mulheres e indígenas. Um Brasil que esconde a sua memória e tem marcas da escravidão fincadas até hoje em sua trajetória.

Há dois dias os executores de Marielle e Anderson foram presos. Tivemos que esperar um ano para que isso fosse possível. De certa maneira, diante do cenário pavoroso e do crime dizem que foi rápido. Rápido para aqueles que não perderam a esposa e o esposo, a mãe e o pai, uma amiga e um amigo, uma referência na política e uma inspiração para mais 46 mil pessoas que votaram em Marielle no ano de 2016.

Anderson, seu motorista, também foi assassinado. Fernanda Chaves, a assessora de Marielle que estava no carro, teve sua vida interrompida. Ela perdeu sua comadre, uma amiga. Mudou do país com sua família. Nós não vivemos o luto. São 365 dias de lentidão sem Marielle.

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O Brasil tem as mãos sujas de sangue pela execução da Marielle, já que nem o título de parlamentar conseguiu evitar seu assassinato, nitidamente com características misóginas e racistas. Preciso reafirmar que corpo era o da minha esposa. Mulher negra, criada na favela da Maré, mãe, socialista e LÉSBICA. Marielle e eu nos relacionamos durante 14 anos de várias maneiras e, somente nos últimos anos, pudemos viver na mesma casa e constituir nossa família. Fomos impedidas por diversas formas de lesbofobias, e muitas, até hoje, são presentes quando negam a lesbianidade da Marielle ou não me reconhecem como sua esposa.

Se hoje sigo na luta por justiça para ela é pela preservação de sua memória, por uma forma de ainda estarmos juntas e para que nenhuma outra família sinta a dor da ausência cotidiana de não ter o amor de sua vida ao seu lado.

Marielle nos foi tirada da pior maneira e não foi pelas bandeiras que ela representava. Nós não nos silenciaremos até ter as respostas dos reais motivos de sua execução e quem mandou matar minha esposa. Nossas bandeiras de luta por liberdade não são nossos algozes. É como se a culpassem com essa linha investigativa. Isso não podemos permitir, pois a Marielle amava a vida e seu trabalho na política era uma forma de contribuir para a justiça social.

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Hoje, estou em Princeton, nos Estados Unidos, a convite da ativista Angela Davis. Escolhi estar com uma das principais inspirações em nossas vidas. Hoje, levantar me exige a mesma coragem do dia 15 de março de 2018. A dor não é explicável e o tempo é interminável. Espero que as ruas no Brasil estejam tomadas com a mesma garra e perseverança que a Marielle tinha ao estar na política. Lutar como Marielle é não abdicar da esperança. Tenho esperança de que dias melhores virão.

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