Raphael Silva Fagundes

20 de maio de 2019, 07h13

Malditos hipócritas: a grande mídia e a investida contra Bolsonaro

Não é uma questão de Bolsonaro ou Lula, mas de acumulação de capital. A burguesia não acreditou que o PT poderia tocar as reformas, agora percebe que nem Bolsonaro tem condições de fazê-las. É necessário um meio termo, um grupo de poder que não toque em temas ideológicos

Bolsonaro e Lula (Montagem)

Quando observamos a produtividade da indústria brasileira desde 2015, encontramos a maior contradição do capitalismo. “A produção industrial encerrou o ano passado com crescimento disseminado nas regiões brasileiras. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 11 dos 15 locais pesquisados houve avanço, com uma média nacional de 1,1%”. Em seguida a notícia do site do governo federal prognostica: “Para 2019, a expectativa dos analistas ouvidos pelo Banco Central é que a indústria nacional avance 3,04%”.[1]

No site do portal da indústria  (portaldaindustria.com.br) há um gráfico que mostra que em 2016 houve um aumento de 1,8% e em 2017 de 4,5%.[2] A crise se encontra com maior vigor no setor de serviço onde se emprega a maior parte da superpopulação relativa produzida pelo capital. A indústria, por sua vez, a base do modo capitalista de produção, gera desemprego para poder ampliar a sua produtividade. Um paradoxo ou o modus operanti do capital?

O aumento da produtividade gera desemprego. Por exemplo: “a montadora Mercedes-Benz anunciou uma série de inovações na fábrica de caminhões e ônibus de São Bernardo do Campo, resultado do investimento de R$ 500 milhões nos últimos três anos, período em que também demitiu 5 mil pessoas. Com a modernização da unidade e a adoção de conceitos da chamada indústria 4.0, a empresa anunciou um ganho de produtividade de 15%”.[3]

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Karl Marx chama esse fenômeno de “lei geral, absoluta, da acumulação capitalista”. Existe um ponto de vista errôneo defendido pelos jornalistas e economistas que trabalham para o grande capital, “entretanto, dogma econômico. Segundo ele, os salários sobem em virtude da acumulação do capital. Os salários mais elevados incentivam o aumento mais rápido da população trabalhadora, e esse aumento prossegue até que o mercado de trabalho se abarrote, ficando o capital insuficiente em relação à oferta de trabalhadores. Caem então os salários, e aparece o reverso da medalha”. Esse ciclo se repete sucessivamente segundo os economistas burgueses. Mas é tudo um delírio, uma maneira de justificar o fortalecimento do capital. “Como é belo esse modo de mover-se a produção capitalista desenvolvida!”, ironiza Karl Marx.

A verdade é que o trabalho gera o desemprego, mais investimento desemboca no pauperismo da classe trabalhadora. O “enriquecimento individual dos capitalistas” “acelera ao mesmo tempo a produção do exército industrial de reserva, numa escala correspondente ao progresso da acumulação social”.[4] No processo de acumulação, o capitalista começa com um capital global que se divide, mais ou menos, em 50% de capital constante (gasto em matéria prima, maquinaria, aluguel etc.) e 50% de capital variável  (destinado à força de trabalho). Após recolher os lucros, retirados da mais-valia (trabalho não pago), o nosso capitalista investe 70% em capital constante e 30% em capital variável. O capital constante cresce progressivamente em relação ao capital variável. Ele compra máquinas e outros elementos que modernizam a produção. Ou seja, do trabalho não pago ao trabalhador (fonte do lucro), o capitalista comprou os instrumentos que futuramente irão desempregar os trabalhadores.

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Esse procedimento se torna um ciclo, pois quando estoura a crise com milhões de desempregados, os economistas e jornalistas que trabalham para o capital clamam por mais investimentos para gerar empregos convencendo grande parte dos trabalhadores a acreditar que a acumulação de capital é a salvação. Eles assim se tornam vítimas que alimentam os próprios carrascos.

O foco das privatizações e concessões é o setor industrial. A procura por investidores estrangeiros concentra-se em sua maior parte justamente neste setor para extrair mais valia do trabalhador e com ela comprar máquinas para gerar desemprego. É inevitável: “parte do capital variável se transforma em constante”. A condição de miséria com o desemprego faz com que o trabalhador venda sua força de trabalho cada vez mais barata para aumentar a riqueza alheia. O trabalhador agradece a Deus por conseguir um emprego que, mais à frente, será a razão de sua desgraça. Ele está a mercê da necessidade de enriquecimento do capital.

Portanto, não é uma questão de Bolsonaro ou Lula, mas de acumulação de capital. A burguesia não acreditou que o PT poderia tocar as reformas, agora percebe que nem Bolsonaro tem condições de fazê-las. É necessário um meio termo, um grupo de poder que não toque em temas ideológicos. Rodrigo Maia, nesse momento, se apresenta como o mais apto a realizar com ou sem o governo e suas trapalhadas.

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No entanto, crise e desemprego sempre irão existir para que a riqueza dos capitalistas se suceda. É uma lei. As reformas não darão jeito nesta lógica e as privatizações vão deixar ainda mais os trabalhadores vulneráveis a essa crueldade. Depois virá a mesma imprensa que deseja tanto o investimento de capital expor seus clamores passageiros e hipócritas de uma literatura de sensação sobre o povo sofrido. Ridículos!!!

[1] http://www.brasil.gov.br/noticias/economia-e-financas/2019/02/producao-industrial-registra-crescimento-em-2018-aponta-ibge

[2] http://www.portaldaindustria.com.br/estatisticas/produtividade-na-industria/

[3] https://epocanegocios.globo.com/Economia/noticia/2018/03/produtividade-brasileira-reage-apos-seis-anos.html

[4] MARX, K. O Capital: crítica da economia política: livro 1, v. 2. Trad: Reginaldo Sant’ana. 30 ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2012. P. 740.