REVIDA MARIANA

Vítimas da Vale/Samarco/BHP e MAB fazem ato em Vitória (ES) para pedir por “justiça e reparação”

Manifestação faz parte de calendário da campanha Revida Mariana cujo passo seguinte será um acampamento em Brasília

Ato público do movimento Revida Mariana em Belo Horizonte. 26/09/2023.Créditos: Nane Camargo/Revida Mariana
Escrito en MEIO AMBIENTE el

O movimento Revida Mariana, criado pelas vítimas do crime ambiental imposto pelas mineradoras Vale, Samarco e BHP Billiton na cidade de Mariana (MG) em parceria com o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), convoca uma manifestação para a próxima terça-feira (10) em Vitória, no Espírito Santo. A partir das 8 horas da manhã, os atingidos pelo crime realizam uma caminhada que partirá da Rua Dom Bosco, no bairro Forte São João.

Heider Boza, da coordenação nacional do MAB, explica que a manifestação tem como objetivo dar voz aos atingidos e mobilizar a sociedade civil, lideranças populares, políticos, entidades de classe e autoridades da justiça.

“Os impactos destruidores da tragédia se estenderam além das fronteiras de Minas Gerais, atingindo diversas cidades capixabas, à medida que a lama da Samarco foi percorrendo mais de 600 quilômetros ao longo do Rio Doce. Dezenove áreas em municípios como Baixo Guandu, Colatina, São Mateus, Conceição da Barra, Aracruz e Serra foram alcançados, chegando ao mar em Regência, Linhares. Comerciantes, populações ribeirinhas, turistas, pescadores e milhares de pessoas sofreram as consequências dessa tragédia criminosa”, explicou.

Boza ressalta que o MAB se mobiliza para articular uma agenda com autoridades do governo do Espírito Santo, para entrega de um documento que solicita o envolvimento dos executivos municipais e estaduais na defesa da repactuação, indenizações justas e a aprovação da Política Estadual dos Atingidos por Barragens (PEAB) e da Política Nacional dos Atingidos por Barragens (PNAB).

Heider Boza - da coordenação nacional do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB)

O rompimento da barragem do Córrego do Fundão, em Mariana-MG, despejou cerca de 60 milhões de metros cúbicos de rejeitos na calha do Rio Doce. De acordo com o MAB, cerca de 1 milhão de pessoas foram afetadas.

"O MAB espera que toda essa movimentação repercuta e sensibilize a justiça brasileira, fazendo avançar o processo que pede a repactuação e a reparação dos danos aos atingidos", explica Boza. Na justiça britânica, em Londres, a ação movida pelo escritório internacional Pogust Goodhead, que representa mais de 700 mil pessoas, cobra indenizações individuais em favor dos atingidos e tem previsão de julgamento para outubro de 2024. As indenizações podem chegar a R$ 230 bilhões.

A manifestação faz parte da Jornada de Luta da Campanha Revida Mariana dos Atingidos por Barragens. A iniciativa, lançada no último mês de setembro, já esteve levou a pauta a uma série de audiências públicas, enviou representantes para a Colômbia e, no último 26 de setembro fez uma manifestação em Belo Horizonte, mesma data que o presidente do TRF-6 recebeu os atingidos para ouvir suas demandas.

“O próximo passo é a jornada dos 8 anos do rompimento da barragem do Fundão, em que iremos dos dias 4 a 7 de novembro, fazer o Acampamento Nacional dos Atingidos por Barragens em Brasília onde esperamos dialogar com o Governo Federal e com o presidente Lula sobre essa pauta que está até hoje sem solução”, revelou.

O crime ambiental de Mariana (MG)

Em 5 de novembro de 2015, o rompimento da barragem do Fundão reduziu parte do município mineiro de Mariana a um mar de lama tóxica, que arrastou ruas inteiras e produziu 19 mortes no ato. Tratado como um “acidente” pela mídia liberal, a tragédia é vista como um crime ambiental sem precedentes pela comunidade local, ambientalistas e pesquisadores.

A barragem abrigava 56,6 milhões de m³ de lama de rejeito. Do total, vazaram 43,7 milhões de m³. Os rejeitos alcançaram os afluentes e o próprio Rio Doce, destruíram distritos inteiros e deixaram milhares de moradores da região sem água, sem trabalho e à mercê da intoxicação pelos rejeitos.

O caso foi considerado, logo que ocorreu, o maior desastre ambiental do Brasil. Cerca de 30 dias após a tragédia foram retiradas nada menos do que 11 toneladas de peixes mortos, oito em Minas Gerais e três no Espírito Santo. Até hoje, ambos os estados ainda sentem os impactos ambientais.

Vinte e duas pessoas e quatro empresas ainda respondem na Justiça pelo desastre ambiental, sendo 21 delas por homicídio. De acordo com avaliação do Ministério Público Federal (MPF), não foram tomadas medidas para evitar a tragédia e as mortes. O resultado disso foi outra tragédia semelhante e ainda mais devastadora em 2019, no município de Brumadinho, na região Metropolitana de Belo Horizonte.

Entre as vítimas também estão indígenas do povo Krenak e ribeirinhos que choram às margens do Rio Doce, ‘assassinado’ pela lama tóxica, sem saber de onde irão tirar seu sustento ou acessar água potável. A morte do rio, inclusive, pode acarretar no fim das suas comunidades.

“As mineradoras só pensam no seu capital, no seu dinheiro”, declarou Maycon Krenak. Seu parente, Anderson Krenak, completou: “Nós sofremos muito com essa tragédia porque nosso povo tem uma relação muito grande com o Rio Doce”.