TERRA INDÍGENA URU-EU-WAU-WAU

Outra invasão de terra indígena é incentivada por madeireiros e pela especulação imobiliária

PF e Força Nacional retiraram os invasores do território que fica ao sul de Porto Velho, em Rondônia, próximo da fronteira com a Bolívia

Placa cravada de balas na Terra Indígena Uru-Eu-Wau-Wau.Créditos: Acervo Associação Kanindé
Escrito en MEIO AMBIENTE el

No último sábado (27) homens da Polícia Federal e da Força Nacional empreenderam a Operação Tapunhas e se dirigiram à Terra Indígena Uru-Eu-Wau-Wau, em Rondônia, para retirar certa de 50 invasores. O nome da operação deriva da palavra ‘tapy’inha’, que significa 'branco invasor' no idioma indígena.

Os agentes retiraram os grileiros e ainda inutilizaram seus 8 barracões e tendas. De acordo com nota das autoridades, não houve resistência e uma pessoa identificada como líder da invasão foi presa e agora é investigada por contrabando de produtos veterinários.

Junto com os demais invasores, também responderá por associação criminosa, invasão de terra da União e desmatamento – podendo pegar até 10 anos de prisão. Paralelamente, dois mandados de busca e apreensão foram cumpridos em Governador Jorge Teixeira (RO) e Theobroma (RO).

“A PF realizou diligência que confirmou o contexto criminoso da ação e qualificou uma das lideranças da movimentação delituosa”, diz a nota da investigação.

E novamente, assim como no contexto dos Yanomami em Roraima, dos Pataxó na Bahia e dos Xokleng em Santa Catarina, o “contexto criminoso” está vinculado a duas questões: as disputas fundiárias, por terras, que vêm acompanhadas da especulação imobiliária; e o avanço do agronegócio e das atividades extrativas, como a indústria madeireira ilegal. E isso quem diz é a Fundação Nacional do Índio (Funai).

De acordo com o órgão, a aproximação das eleições municipais costuma aumentar a tensão entre indígenas e invasores na região. No último dia 21 de janeiro, segundo apuração do portal Amazônia Real, os indígenas se depararam com os invasores. Os barracões, posteriormente destruídos pelas autoridades, estavam na região chamada de Alto Jamari, próximos a uma aldeia. Segundo a denúncia dos indígenas, os invasores já discutiam a partilha dos lotes.

Ramires Andrade, chefe da Divisão Técnica da Coordenação Regional de Ji-Paraná da Funai, explicou na matéria supracitada que a invasão era incentivada politicamente, por figuras políticas dos municípios que circulam o território, para que fosse feita a ocupação ilegal das terras. A moeda de troca pela facilitação do acesso às terras ilegal seria o voto e uma forcinha na campanha.

“Estamos monitorando de perto todos esses movimentos e, assim como agimos pronta e imediatamente para desmobilizar esse acampamento, continuaremos a agir para conter quaisquer outras iniciativas de invasores que tenham por objetivo ingressar, permanecer ou explorar ilegalmente o Território Indígena Uru-Eu-Wau-Wau”, explicou Andrade.

Lideranças da região disseram à repórter Luciene Kaxinaguá que temem represálias dos grileiros em relação à aldeia Alto Jamari. “A gente sentiu que o trabalho da PF e da Funai foi feito. Mesmo assim, temos medo de retaliação. São coisas que está muito preocupado, por conta do que já vêm ocorrendo em outros territórios”, disseram os indígenas que obviamente não foram identificados.

A Terra Indígena Uru-Eu-Wau-Wau

A Terra Indígena Uru-Eu-Wau-Wau possui uma área de 1867 hectares ao sul de Porto Velho, a capital de Rondônia, próxima à fronteira com a Bolívia. Lá vivem 9 povos diferentes. Os indígenas Uru-Eu-Wau-Wau dividem o espaço com os Oro Win, os Juma e os Amondawa, além de cinco povos isolados. Excluindo os povos isolados, de quem pouco se sabe, três idiomas são falados na região: o kawahib e o kawahiva, que são da família linguística do tupi-guarani, e o txapakura, língua do povo Oro Win.

As disputas fundiárias datam dos anos 80 na localidade, coincidindo com a própria colonização e expansão agrícola no interior de Rondônia. As áreas são muito cobiçadas por fazendeiros e madeireiros, entre outros setores, e mesmo com a homologação do território os conflitos não arrefeceram. A região costuma registrar desmatamento, incêndios, caça ilegal, extração de madeira e produtos florestais, invasões e outras ocorrências.

A indigenista Neidinha Suruí, uma das responsáveis por denúncias a recente invasão, é uma personagem histórica no território. Ela teve sua história contada no documentário “O Território”, premiado no Festival de Haia, na Holanda.

Outras invasões

A seguir, confira matérias especiais da Revista Fórum sobre as invasões de outros territórios indígenas.

Yanomami (RR)

Pataxó (BA)

Xokleng (SC)

Parakanã (Apiterewa-PA)