Comida intoxicada: cultivos da região atingida por tragédia do Rio Doce têm metais tóxicos

Dez anos após o rompimento da barragem de Fundão, que despejou mais de 40 milhões de metros cúbicos de rejeitos ao longo do Rio Doce, as consequências perduram em resíduos que contaminam o solo e os alimentos

Rio Doce.Créditos: Wikipedia
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Dez anos após o rompimento da barragem de Fundão, sob administração da mineradora Samarco, que despejou mais de 40 milhões de metros cúbicos de rejeitos de minério no Rio Doce — curso d'água que banha os estados de Minas Gerais e Espírito Santo —, as consequências do desastre perduram em resíduos que ainda contaminam o solo e os alimentos da região.

É o que indica um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), em parceria com a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (ESALQ/USP) e a Universidade de Santiago de Compostela (Espanha), publicado no periódico Environmental Geochemistry and Health.

Com financiamento da FAPESP e da FAPES, no programa Solos e Bentos Rio Doce, o estudo coletou amostras de campo retiradas da região do estuário do Rio Doce entre 2019 e 2021, e posteriormente levadas a laboratório para análise.

As amostras correspondiam a pedaços de solos agrícolas e partes comestíveis de culturas cultivadas no estuário do Rio Doce, como cacau, mandioca e banana.

As análises utilizaram técnicas padrão para a quantificação dos metais pesados presentes nas amostras, de acordo com valores de orientação de referência internacional, como os da Organização Mundial da Saúde, e índices de risco, como o Target Hazard Quotient (THQ).

O estudo considera o risco da concentração de metais pesados residuais para o consumo da população adulta e infantil que entra em contato com as culturas produzidas ao longo do Rio Doce, em partes da região atingida pela tragédia.

De acordo com as análises, foram encontrados nas amostras de solo e alimentos metais como cádmio, cromo, cobre, níquel e chumbo, em vários pontos superiores às referências adotadas pela ONU para a segurança alimentar.

As análises de risco à saúde, no entanto, avaliaram o potencial dos metais como não cancerígeno. Para crianças, o risco em potencial — embora os limites fiquem abaixo dos considerados críticos nas amostras — ainda está presente, especialmente no consumo de bananas. O chumbo foi o elemento de risco mais elevado observado nas amostras.

Segundo os autores, a contaminação não é local e de curta duração, mas perdurou nos anos após o desastre e segue processos graduais de toxicidade, como a liberação de metais associados aos óxidos de ferro, que ocorre ao longo do tempo em processos denominados “redox”.

O rompimento da barragem da Samarco afetou centenas de quilômetros até a foz do rio e impactou solos, sedimentos e a fauna da região, além de comunidades ribeirinhas e indígenas.

“A exposição crônica ao chumbo está associada a danos ao desenvolvimento neurológico irreversíveis, como redução de QI (coeficiente de inteligência), déficits de atenção e alterações comportamentais”, explica a pesquisadora da USP Tamires Patrícia de Souza, uma das coautoras do estudo, ao portal da UFES.

“Crianças de zero a 6 anos de idade absorvem e retêm mais chumbo que adultos, tornando-as especialmente vulneráveis mesmo a baixas concentrações. Por isso, o estudo aponta a necessidade de medidas urgentes de monitoramento, estudos de bioacessibilidade e intervenções de saúde pública para reduzir a exposição contínua e proteger as populações mais sensíveis”.

O estudo reforça dados anteriores que sugerem que os elementos de potencial tóxico na região do estuário têm natureza crônica e que a contaminação é um processo contínuo.

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