JUSTIÇA SOCIOAMBIENTAL

Organizações da sociedade civil lançam as prioridades para COP30

Observatório do Clima, rede que representa mais de cem entidades ambientais, apresenta pontos que deveriam ser entregues pela conferência, demarcadora de um novo contrato ecológico global entre países desde a Eco92

COP30, em Belém.Créditos: Foto por MAURO PIMENTEL / AFP
Escrito en MEIO AMBIENTE E SUSTENTABILIDADE el

A 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (Conferência das Partes), que começa nesta segunda-feira (10) em Belém, ocorre “sob o pior contexto internacional possível para ação climática” e, segundo o Observatório do Clima, só poderá ser considerada um sucesso se entregar “dois mapas do caminho sobre eliminação de combustíveis fósseis e de desmatamento”.

A rede de organizações da sociedade civil pelo clima destaca ainda a necessidade de elevar a adaptação climática ao mesmo nível da redução de emissões, criar um mecanismo internacional para transição justa e revisar o Plano de Ação de Gênero, além de responder à atual lacuna de ambição. 

O documento de expectativas do Observatório, publicado no último dia da Cúpula de Líderes, define pelo menos sete eixos prioritários para a conferência: ambição, combustíveis fósseis, natureza, transição justa, adaptação, financiamento e gênero, e ressalta a importância da mobilização popular fora do pavilhão principal da COP.

“Belém pode, na melhor hipótese, deixar um importante legado para a sociedade brasileira ao causar um efeito catalisador da ação climática. A cobertura de imprensa sem precedentes na Zona Azul, onde ocorrem as negociações, se soma a uma cidade que ferverá durante duas semanas com debates, exposições, palestras, apresentações culturais e manifestações da sociedade civil”, afirma o texto.

De acordo com a rede, a Cúpula dos Povos, composta por mais de mil organizações e coletivos, reunirá movimentos sociais na primeira semana para apresentar demandas à negociação e uma grande marcha pelo clima ocorrerá no primeiro sábado da conferência, dia 15.

O Observatório do Clima espera que o espírito do ‘mutirão’ de Belém chegue não apenas os negociadores, "mas também a sociedade brasileira e o eleitorado, que irá às urnas em 2026 e terão a chance de substituir o pior Congresso da história e de evitar o retorno da extrema-direita ao poder."

A agenda climática, segundo o Observatório, vem despencando na lista de prioridades dos governos. Apenas 15% dos países cumpriram o prazo de atualização de suas NDCs (contribuições nacionais determinadas) em fevereiro. Ao final do período prorrogado, só 64 planos haviam sido apresentados, cobrindo 30% das emissões globais, número insuficiente para colocar o planeta na rota segura.

A previsão atual indica que, no ritmo atual, o mundo reduzirá apenas 4% das emissões até 2035, quando seria necessário cortar 60% para manter viva a meta de 1,5°C. “A desconfiança entre as nações está na estratosfera”, resume o texto, em referência ao fracasso da COP29, quando países em desenvolvimento foram forçados a aceitar um acordo considerado desfavorável em financiamento climático.

O que a COP30 precisa entregar

  • Aumentar a ambição das NDCs — a conferência deve garantir uma resposta política à insuficiência das metas nacionais. O OC propõe uma declaração de líderes que reconheça a gravidade da lacuna e chame países a acelerar a redução de emissões nesta década crítica.
  • Transição para longe dos combustíveis fósseis — é hora de transformar a decisão do Balanço Global em um plano de transição energética justo, ordenado e equitativo. O Brasil poderia liderar o processo ao propor um calendário internacional para o fim dos combustíveis fósseis.
  • Natureza e sistemas alimentares — o OC pede a criação de um mapa do caminho para acabar com o desmatamento até 2030 e de um programa permanente de sinergia entre clima, biodiversidade e solo.
  • Transição justa — o Observatório defende o estabelecimento do Mecanismo de Ação de Belém para uma Transição Justa Global (BAM), que vincule ação climática a justiça social, equidade e direitos humanos, com foco em populações historicamente marginalizadas.
  • Adaptação — a conferência deve concluir o Marco UAE–Belém para Resiliência Climática Global, com indicadores robustos e financiamento triplicado para adaptação até 2030.
  • Financiamento — após o fracasso da meta global definida na COP29, será preciso reconstruir a credibilidade do sistema e aumentar os aportes em subsídios públicos e no Fundo de Perdas e Danos.
  • Plano de Ação de Gênero — a nova versão do plano deve integrar igualdade de gênero e raça em todas as áreas da Convenção, com metas mensuráveis e indicadores desagregados por gênero, etnia e território.

Ecos da Eco de 92

A primeira conferência climática no Brasil foi na cidade do Rio de Janeiro, em 1992, quando ocorreu a histórica Conferência da ONU sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, popularmente chamada de Eco-92. Naquele ano, foi firmado o primeiro tratado global que uniu países de diferentes regiões e culturas em torno do desafio comum das mudanças climáticas. De lá pra cá, houveram mais de 30 COPs em diferentes países, e os Ecos de 92 seguem ressoando no presente.

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