Em um esforço histórico, pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), do Centro de Biologia Marinha da USP (Cebimar), da UFRJ, da Universidade Técnica da Dinamarca e da Academia de Ciências da Califórnia reuniram dados genéticos, biológicos e geográficos de 182 espécies de peixes de recifes distribuídos por ilhas isoladas no Atlântico para reconstruir sua história genética e natural.
Entre o Brasil e a África, no território oceânico que rodeia as ilhas de São Pedro e São Paulo — arquipélago a cerca de 1.100 km de Natal (RN) —, Ascensão e Santa Helena (pequenas ilhas britânicas no Atlântico Sul), os pesquisadores descobriram uma origem comum e uma espécie de “oásis biológico” no Atlântico tropical, apesar de estarem separadas por 1.300 quilômetros de oceano aberto, como narram ao Jornal da USP.
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As pesquisas identificaram quase 200 espécies de organismos, 46 delas endêmicas e de ocorrência única na região das três ilhas. Segundo a autora principal do estudo, Isadora Cord Pessoa Ferreira, especialista em ecologia e evolução, que falou ao Jornal USP, as análises revelaram que as comunidades existentes nas ilhas formam uma “unidade biogeográfica coesa”, com espécies mais aparentadas às do oceano Atlântico Ocidental — principalmente ao longo da costa brasileira e do Caribe — do que às espécies africanas. Isso indica que a dispersão das espécies reflete a história de como os oceanos Atlânticos se conectaram ao longo de séculos de evolução geológica.
Algumas das linhagens estudadas têm origem anterior à formação das ilhas, que remontam a mais de cinco milhões de anos, enquanto outras surgiram recentemente, como uma nova espécie identificada de peixe do gênero Ophioblennius, comum em recifes rasos do Atlântico tropical.
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As ilhas foram classificadas como laboratórios naturais por sua alta biodiversidade em um ambiente tão isolado, formando comunidades pequenas e essenciais para o estudo das dinâmicas de barreiras geográficas e das diferenças genéticas acumuladas entre as espécies.
As três ilhas, que compartilham condições ambientais e uma história evolutiva comum, são lar de espécies únicas. Segundo o artigo, 44 espécies ocorrem tanto nas ilhas quanto na costa do Brasil e no Caribe, 11 aparecem exclusivamente nas ilhas atlânticas e na costa africana, e 74 estão presentes em ambos os lados do oceano.
Além disso, pelo menos 44 espécies são endêmicas da dorsal mesoatlântica. Um fato curioso é que três delas foram encontradas simultaneamente nas três ilhas estudadas, apesar do isolamento geográfico e das barreiras naturais.
De acordo com Cord, “é como se o mar fosse um deserto, e a costa dos continentes e ilhas oceânicas fossem oásis”, com condições especiais adaptadas para peixes continentais.
As espécies encontradas na ilha próxima ao Brasil, no entanto, são geneticamente próximas daquelas encontradas nas outras ilhas, o que levanta a hipótese de que a diversidade de peixes do Atlântico Ocidental se explica por colonizações entre espécies diversas que “usaram ilhas como trampolins” para se estabelecerem “no meio do Atlântico”, como observa o pesquisador Gabriel Araújo, coautor do estudo, à USP.