Na história geológica da Terra, um período conhecido como “Boring Billion” — algo como “os bilhões tediosos”, que se estendeu entre cerca de 1,8 bilhão e 800 milhões de anos atrás — foi considerado, durante muito tempo, um intervalo de aparente estabilidade evolutiva, em que o planeta experimentou poucas transformações geológicas, climáticas ou biológicas significativas.
No entanto, novas pesquisas indicam que foi justamente durante esses bilhões de anos “tediosos” que um evento importante tomou lugar: a fragmentação de um supercontinente gigantesco, a Colúmbia (também conhecida como “Nuna”), que desencadeou profundas mudanças na biogeografia terrestre e pode ter sido o ponto de partida para a origem de toda a vida complexa.
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De acordo com um estudo publicado no periódico Earth and Planetary Science Letters, a separação do supercontinente, que “rachou” ao meio, pode ter sido o fenômeno de origem dos mares rasos e de maiores margens continentais (favoráveis à vida terrestre), além de ter provado uma queda nas emissões de gás carbônico vulcânico. Isso proporcionou ao planeta uma parcela maior de oxigênio e pode ter criado as condições fundamentais para o aparecimento de organismos complexos.
A Nuna é um dos primeiros supercontinentes identificados na Terra, e estima-se que tenha sido formada entre 2,1 bilhões e 1,8 bilhão de anos atrás em tempo geológico (Ga). Já sua fragmentação pode ter se iniciado há cerca de 1,5 Ga.
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A extensão total das plataformas rasas costeiras e margens da Terra mais do que dobrou durante cerca de 350 milhões de anos, alcançando 130.000 km, diz o artigo. Já as zonas de subducção — áreas em que as placas tectônicas mergulham no manto da Terra — passaram por uma redução no seu comprimento, o que pode ter resultado na liberação rápida de dióxido de carbono vulcânico para a atmosfera.
O novo cenário permitiu que os recém-gerados “fundos oceânicos” fossem penetrados pela água do mar, o que levou a reações geológicas importantes, como o armazenamento de carbono nos sedimentos rochosos — e sua consequente retirada da atmosfera.
Essas transformações criaram as condições para o surgimento de “recintos ecológicos”: espécies de mares rasos que funcionaram como incubadoras de vida microbiológica.
Com o oxigênio dessas regiões se elevando gradualmente, nutrientes mais abundantes e maior estabilidade geológica, formou-se o cenário perfeito para a diversificação das células eucarióticas — aquelas com núcleo definido —, ancestrais dos animais, das plantas e dos fungos.
O estudo utilizou modelagens geológicas e geoquímicas para compreender como a Terra reagia a essas mudanças há mais de 1,8 bilhão de anos e formulou a hipótese de que a ruptura da Colúmbia está ligada ao surgimento da vida complexa, assim como aos fatores geológicos em curso.
O novo entendimento posiciona esse período, antes considerado estável, como uma nova fase da evolução da habitabilidade terrestre para a vida animal — e pode ajudar a explicar por que a “vida complexa” como a conhecemos demorou tanto a evoluir no planeta, até que fossem criadas as condições apropriadas para o surgimento dos primeiros eucariotos.
“Os próximos passos serão descobrir mais fósseis de eucariotos bem preservados para documentar sua evolução inicial”, afirma o pesquisador Dietmar Müller, professor de geofísica da Universidade de Sydney, que conduziu a pesquisa, em entrevista à revista Live Science.