Embora a maior parte dos países tenham levado à COP30 propostas que exaltam o uso de ferramentas digitais para enfrentar a crise climática, quase nenhum deles colocou no papel compromissos concretos para conter o impacto ambiental do próprio setor tecnológico. É o que diz um relatório da Organização das Nações Unidas (ONU), produzido pelo International Telecommunications Union, agência da ONU especializada em assuntos tecnológicos, e publicado na cúpula do clima. A aposta nas tecnologias digitais como parte da solução para enfrentar a crise climática consta em 90% das propostas apresentadas pelos países, segundo o documento.
O paradoxo, porém, é que enquanto esses países projetam a tecnologia como chave para “salvar o planeta”, deixam de estabelecer qualquer mecanismo para avaliar o impacto ambiental das próprias big techs. "Isso torna o impacto digital difícil de isolar, rastrear e regular. Apenas alguns países reconhecem explicitamente o próprio setor digital em suas NDCs", alertam os pesquisadores. Implementadas no Acordo de Paris, em 2015, as NDcs são as Contribuições Nacionalmente Determinadas, metas estabelecidas por cada país para reduzir emissões de gases de efeito estufa e se adaptar às mudanças climáticas.
"O setor representa entre 1,5% e 4% das emissões globais de GEE, impulsionados por data centers com uso intensivo de energia, fabricação de dispositivos e crescente demanda por processamento relacionado à IA"
O resumo técnico da UIT analisou 53 NDCs entregues entre janeiro e setembro deste ano, antes da conferência. Segundo o documento, sistemas digitais aparecem conectados a praticamente todos os setores estratégicos, energia, agricultura, florestas, transporte, gestão hídrica e prevenção de desastres. Entre os usos mais citados pelos países estão:
- Sistemas de MRV (monitoramento, relato e verificação), que refinam a precisão dos inventários de emissões;
- Ferramentas digitais de apoio à decisão, usadas no planejamento de políticas climáticas;
- Sistemas de alerta precoce, mencionados por 34 nações.
A aplicação de IA está incluída em cerca de 20% das NDCs que fazem referência direta à tecnologia, voltada para modelagem, previsão climática e análise de uso do solo. Para a UIT, a incorporação desses instrumentos pode acelerar a efetividade das políticas climáticas, especialmente em países que enfrentam eventos extremos com frequência crescente.
Mas hoje, data centers, redes de telecomunicação, dispositivos eletrônicos e a explosão do processamento necessário para IA formam um conjunto de atividades com grande demanda energética. Nas metodologias de inventários nacionais do IPCC, essas emissões ficam dispersas na energia, processos industriais, agricultura ou resíduos, dificultando o rastreamento e impedindo regulações específicas. A UIT alerta que, sem transparência, existe o risco de uma “migração de emissões” entre setores, sem redução real. Poucos países mencionam o setor digital de forma explícita nas suas promessas.
A UIT propõe cinco ações consideradas essenciais para que a digitalização se torne realmente alinhada ao clima:
- passar do compromisso para a execução, integrando metas digitais a planos concretos;
- medir impacto líquido, incluindo tanto as reduções proporcionadas pela tecnologia quanto a pegada do setor;
- fechar lacunas tecnológicas e de financiamento, ampliando acesso a soluções digitais climáticas;
- adotar uma abordagem setorial específica, dando visibilidade às emissões do setor digital nos inventários nacionais;
- reforçar a desagregação dos dados, permitindo identificar claramente elementos digitais nos setores analisados pelo IPCC.
EUA, que abriga big techs e é um dos maiores emissores, faltou à COP
Com a volta do discurso negacionista de Donald Trump no início de 2025, os EUA deixaram novamente o acordo no início de seu mandato. Mesmo assim, a presença norte-americana em Belém foi mantida, governadores de diferentes estados americanos marcaram presença. A Casa Branca não levou representantes de alto escalão na COP30, como deixou claro Donald Trump.
Gavin Newsom, governador da Califórnia, classificou a ausência de Donald Trump na COP30 como uma “abdicação completa de responsabilidade” na condução da agenda climática global. Em entrevista no dia 11 de novembro, Newsom afirmou que a ausência do presidente norte-americano abre espaço para que Pequim assuma protagonismo.
“A China entende [a transição verde] melhor do que qualquer outro. Ele [Trump] está cedendo a liderança para a China. O presidente Xi está vibrando”, declarou.
Em uma matéria da Fórum, mostramos que as "inovações tecnológicas" das big techs aprofundam desigualdes sociais em países subdesenvolvidos na América Latina. No Brasil, por exemplo, ainda não há um mapeamento público sobre a quantidade e nem dos processos de instalação de datacenters, estruturas que armazenam e processam dados que sustentam a operação de plataformas digitais e sistemas de inteligência artificial.
A informação foi obtida através de um pedido de Lei de Acesso à Informação (LAI) feito pela Fórum à Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) em busca de um levantamento do panorama das infraestruturas no país. O órgão informou que há um projeto de mapeamento em curso, com previsão de conclusão até o fim do ano, mas que ainda "não dispõe de uma base de dados oficial consolidada". Enquanto isso, o país vive uma expansão acelerada dos datacenters. As instalações são financiadas por isenções fiscais oferecidas por governos e inseridas em áreas de risco ambiental, sem transparência pública sobre seus impactos energéticos, sociais e políticos, reflexo do que big techs como Microsoft, Google, TikTok e Meta, têm feito ao transferir parte de seus datacenters, principalmente, para países do Sul Global, ampliando dinâmicas de dependência tecnológica e extrativismo de dados.