Um estudo de longo prazo realizado no Parque Nacional de Kibale, em Uganda, revelou que uma guerra territorial entre chimpanzés resultou em um aumento populacional sem precedentes para o grupo vencedor. A pesquisa, publicada em novembro pela revista PNAS, mostra que a comunidade de Ngogo, após eliminar rivais e ocupar novas áreas, viveu um verdadeiro baby boom.
Entre 1998 e 2008, os chimpanzés de Ngogo se envolveram em confrontos violentos com grupos vizinhos. Pelo menos 21 indivíduos foram mortos nesses choques. Em 2009, após o fim da disputa, os vencedores avançaram sobre uma área antes habitada pelos rivais, ampliando seu território em 22 por cento.
O efeito da expansão territorial foi imediato. Nos três anos anteriores ao avanço, as fêmeas haviam dado à luz 15 filhotes. No período equivalente após a conquista, nasceram 37. A taxa de sobrevivência também mudou drasticamente: antes, 41 por cento dos filhotes morriam antes dos 3 anos; depois, o índice caiu para 8 por cento.
Segundo Brian Wood, antropólogo da Universidade da Califórnia e autor principal do estudo, o aumento na oferta de alimentos e a melhoria na saúde das fêmeas foram fatores decisivos. Além disso, a eliminação de machos rivais reduziu ataques contra filhotes, uma das principais causas de mortalidade entre chimpanzés.
Pesquisadores afirmam que o conflito oferece pistas sobre as raízes evolutivas da violência humana. Assim como chimpanzés e bonobos, nossos ancestrais mais antigos provavelmente viveram disputas territoriais por recursos escassos. A diferença, destacam os especialistas, é que humanos desenvolveram mecanismos de cooperação, mediação e estruturas sociais complexas que permitem benefícios em interações entre grupos.
Para Michael Wilson, especialista em comportamento de chimpanzés da Universidade de Minnesota, o estudo reforça um padrão evolutivo: sob certas condições, defender território e eliminar rivais aumenta diretamente o sucesso reprodutivo. Mas os cientistas lembram que se trata de um jogo de soma zero: enquanto um grupo prospera, o outro é eliminado.
Mesmo assim, os autores ressaltam que não se trata de um modelo aplicável ao mundo humano contemporâneo. A capacidade humana de cooperação, comércio e convivência ampliou tanto os benefícios da interação entre grupos que, segundo Wilson, iniciar guerras hoje é “uma ideia bastante estúpida”.
*Com informações de Lives Science