Uma pesquisa divulgada na revista Nature identificou um sistema reprodutivo incomum em formigas do sul da Europa. Cientistas demonstraram que a espécie Messor ibericus produz machos de outra espécie, Messor structor, como parte regular de seu ciclo de vida.
A investigação analisou 390 indivíduos de cinco espécies e acompanhou colônias mantidas em laboratório. Os dados mostram que as rainhas de M. ibericus só conseguem gerar operárias quando utilizam espermatozoides de machos de M. structor. Sem esse material genético, a colônia não produz a força de trabalho necessária para funcionar.
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Produção interna de machos de outra espécie
Um dos pontos centrais do estudo é que, mesmo em regiões onde M. structor não ocorre, as colônias de M. ibericus continuam funcionando. Isso acontece porque as próprias rainhas passam a produzir machos de M. structor dentro do ninho. Esses machos são geneticamente idênticos aos machos selvagens, mas surgem a partir de óvulos que não carregam DNA materno.
O processo é uma forma de androgênese, na qual o embrião se desenvolve apenas com o DNA do espermatozoide. Segundo os autores, este é o primeiro caso documentado em que esse mecanismo ocorre de forma obrigatória entre espécies diferentes.
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Duas espécies no mesmo formigueiro
O estudo mostra que as colônias de Messor ibericus funcionam com três tipos de descendentes, cada um cumprindo uma função distinta no ciclo reprodutivo:
Operárias híbridas
São as trabalhadoras da colônia. Elas nascem da união entre uma rainha M. ibericus e o esperma de machos M. structor.
Sem esses híbridos, o ninho não se mantém.
Machos de Messor ibericus
São produzidos normalmente pela rainha, com o DNA materno. Seu papel é fecundar novas rainhas da própria espécie.
Machos de Messor structor
Mesmo sendo de outra espécie, esses machos são produzidos pela própria rainha de M. ibericus, por um processo em que o embrião se desenvolve apenas com o DNA do espermatozoide de structor previamente armazenado.
Como isso funciona dentro do ninho
As colônias de Messor ibericus produzem dentro do próprio formigueiro machos que pertencem à outra espécie, Messor structor. Esses machos não vêm de fora: são gerados pela própria rainha e só existem ali.
Depois de nascerem, eles produzem o esperma que a rainha precisa para gerar as operárias híbridas, que são essenciais para o funcionamento da colônia.
Em seguida, esses mesmos machos fecundam a própria rainha, fechando o ciclo. Assim, mesmo sendo de outra espécie, eles passam a fazer parte do sistema reprodutivo de Messor ibericus, que cria e controla os machos dos quais depende.
Isolamento das linhagens
O estudo também investigou se os machos Messor structor produzidos dentro dos ninhos de M. ibericus poderiam deixar a colônia e acasalar com fêmeas selvagens de sua própria espécie. Os pesquisadores não encontraram qualquer evidência desse movimento. As análises genéticas mostram que os machos clonais criados nos ninhos e as populações naturais de M. structor permanecem completamente separadas.
Na prática, esses machos existem apenas dentro das colônias de M. ibericus e servem exclusivamente ao ciclo reprodutivo da espécie que os produz, sem qualquer participação na reprodução da população selvagem de M. structor. Com informações da "Nature".