Às vésperas da COP30, que começa na próxima segunda-feira, 10 de novembro, em Belém (PA), um novo relatório da Changing Markets Foundation, divulgado no último dia 5, acendeu o alerta sobre o poder do agronegócio brasileiro nas negociações climáticas globais.
O documento mostra que a indústria da carne tem influenciado e distorcido o debate climático em todo o mundo, apostando no discurso de “sustentabilidade tropical” para parecer mais verde do que realmente é e reforçar sua imagem de “parte da solução”, mesmo enquanto segue expandindo práticas altamente poluentes.
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O estudo, intitulado The Meat Agenda: Agricultural Exceptionalism and Greenwash in Brazil (A Agenda da Carne: Excepcionalismo Agrícola e Greenwashing no Brasil), revela como gigantes do setor como JBS, Marfrig/BRF (MBRF) e Minerva moldam a opinião pública e influenciam as políticas climáticas globais sob uma narrativa de “modernização sustentável” do agronegócio brasileiro.
Segundo a Changing Markets, o agronegócio exerce influência direta sobre políticas públicas, sobre a Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC) do Brasil e sobre a narrativa internacional relacionada à produção de alimentos e às emissões agrícolas.
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A investigação também aponta uma sofisticada campanha de relações públicas, que inclui oficinas para jornalistas, o uso de influenciadores digitais e o patrocínio de eventos e pesquisas sobre “agricultura sustentável”, estratégias que buscam reforçar a imagem do setor como “parte da solução” enquanto evitam regulamentações ambientais mais rigorosas.
O peso das emissões e a omissão do metano
Segundo o relatório, a agricultura responde por 74% das emissões de gases de efeito estufa do Brasil e 75% das emissões de metano, sendo a pecuária o principal fator. Apenas as emissões entéricas — o metano liberado pelos animais — equivalem a 405 milhões de toneladas de CO2 em 2023, mais do que a emissão total de países como a Itália.
O Brasil tem 238 milhões de cabeças de gado, mais do que sua população humana, e responde por 21% das exportações globais de carne bovina. Ainda assim, o metano agrícola não é citado nas metas climáticas brasileiras (NDC), o que a fundação classifica como uma grave omissão.
A força política do agronegócio
A Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) é o principal vetor de poder do setor, controlando 59% da Câmara dos Deputados e 62% do Senado. Com o apoio do Instituto Pensar Agropecuária (IPA) e de campanhas milionárias de marketing, o grupo garante isenções fiscais, desregulação ambiental e influência direta na formulação de leis, como o chamado “PL da Destruição”, aprovado neste ano e convertido na Lei nº 15.190/2025
O presidente Lula sancionou a nova lei com 63 vetos a pontos considerados nocivos à proteção ambiental e aos direitos de povos indígenas e quilombolas. O texto, originado do PL 2.159/2021, havia sido amplamente criticado por ambientalistas por flexibilizar o licenciamento ambiental.
Entre os vetos estão trechos que transferiam aos estados o poder de definir critérios de licenciamento, limitavam a consulta a comunidades tradicionais e autorizavam o desmatamento de áreas da Mata Atlântica. Lula também barrou o uso da Licença por Adesão e Compromisso (LAC) em atividades de médio impacto e a dispensa de licenciamento para produtores com CAR pendente.
A ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, classificou os vetos como “estratégicos” para preservar a integridade do licenciamento e garantir as metas de desmatamento zero e redução das emissões de CO2. O governo pretende ainda enviar um novo projeto de lei e uma medida provisória para aperfeiçoar o texto.
A sessão do Congresso que analisará os vetos ainda não ocorreu — a votação marcada para 16 de outubro foi cancelada, sem nova data definida.
Essas alianças políticas e institucionais permitem que o agronegócio mantenha poder decisivo sobre a política climática nacional e amplie sua influência nas negociações da COP30, consolidando o Brasil como palco de disputa entre interesses econômicos e compromissos ambientais globais.
Avanços, contradições e desigualdade
O relatório reconhece avanços no combate ao desmatamento e na redução da fome sob o governo Lula, impulsionados por pequenos agricultores familiares, responsáveis por dois terços dos alimentos consumidos no país.
Contudo, esses produtores controlam apenas um quarto das terras agrícolas e recebem menos de 10% do crédito público, enquanto o agronegócio continua acumulando poder e lucros.
A fundação também denuncia a concentração de renda e a precarização do trabalho: mais de 100 mil funcionários da JBS recebem cerca de R$ 1.700 por mês, enquanto executivos chegam a salários superiores a US$ 400 mil.
A crítica ao marketing verde
Campanhas publicitárias tentam consolidar o agronegócio como “motor da economia nacional”. Pouco antes da COP30, a JBS lançou uma campanha estrelada por Fátima Bernardes, com o slogan “alimentando um futuro melhor”.
No entanto, a empresa enfrenta processos por greenwashing nos Estados Unidos. Neste mês, a Procuradoria-Geral do Estado de Nova York anunciou um acordo de US$ 1,1 milhão com a JBS USA por publicidade enganosa sobre metas climáticas.
Metano, regulação e futuro climático
A Changing Markets Foundation reforça que o Brasil é o quinto maior emissor mundial de metano e que a pecuária é responsável por mais de 75% das emissões nacionais. Para a organização, não será possível cumprir as metas do Acordo de Paris sem enfrentar esse problema.
“As ambições climáticas do Brasil são louváveis, mas inatingíveis sem lidar com as emissões do agronegócio”, afirmou Maddy Haughton-Boakes, coordenadora da fundação.
Ela destacou que a COP30 é uma oportunidade decisiva para o país “romper com o greenwashing” e assumir papel de liderança global baseada em ciência e justiça climática.
Sobre a Changing Markets Foundation
A Changing Markets Foundation é uma organização sem fins lucrativos registrada na Holanda, com filial nos Estados Unidos. Atua em campanhas que investigam cadeias produtivas de alto impacto, como moda rápida, plásticos e indústria da carne.
A entidade defende que mercados devem refletir valores sociais e ambientais, promovendo um ciclo de mudança em que empresas sustentáveis prosperem e pressionem por legislações mais justas.
Seu orçamento anual gira em torno de € 1 a 1,5 milhão — o equivalente a cerca de US$ 1,1 a 1,6 milhão —, financiado por fundações filantrópicas, doações privadas e consultorias em sustentabilidade.
Em 2024, recebeu US$ 250 mil da Sustainable Markets Foundation, mantendo, segundo declarações públicas, autonomia editorial e estratégica sobre suas campanhas.
Um teste para a COP30
O relatório conclui que a COP30 será um divisor de águas: ou coloca a ciência e a justiça climática no centro das decisões, ou permanecerá refém do lobby corporativo.
A Changing Markets propõe que o Brasil, como país-sede, denuncie o greenwashing e exclua interesses empresariais das negociações, caso queira consolidar sua posição como liderança climática global.