COP30: quem lucra com a crise está dentro das negociações da ONU

Mais de 5 mil lobistas de combustíveis fósseis participaram das últimas quatro COPs, revela The Guardian; relatório reforça o alerta sobre o futuro das metas globais

COP30: quem lucra com a crise está dentro das negociações da ONU.Mais de 5 mil lobistas de combustíveis fósseis participaram das últimas quatro COPs, revela The Guardian; relatório reforça o alerta sobre o futuro das metas globaisCréditos: KBPO
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Uma investigação exclusiva publicada pelo jornal britânico The Guardian nesta sexta-feira (7) revelou que mais de 5 mil lobistas de empresas de petróleo, gás e carvão participaram das últimas quatro conferências climáticas da ONU (COP26 a COP29).

O levantamento, realizado pela coalizão internacional Kick Big Polluters Out (KBPO) — formada por mais de 450 organizações da sociedade civil — escancara a força e a influência da indústria fóssil nos principais fóruns multilaterais sobre o clima.

Segundo a pesquisa, 5.368 representantes de 859 organizações ligadas ao setor de combustíveis fósseis tiveram acesso direto às negociações entre 2021 e 2024. Destas, 180 eram grandes corporações internacionais, como Shell, BP, ExxonMobil e Chevron, além de estatais e empresas de energia de países exportadores.

De acordo com o Guardian, apenas 90 dessas companhias foram responsáveis por 57% da produção global de petróleo e gás em 2024 — o equivalente a 33,7 bilhões de barris de petróleo, volume que ilustra o alcance econômico e geopolítico desse setor.

Expansão e concentração global

O relatório da KBPO, baseado na Global Oil and Gas Exit List 2025 (GOGEL), mostra que essas mesmas 90 empresas concentram 63% dos novos projetos de exploração e perfuração de combustíveis fósseis no curto prazo.

Entre 2023 e 2025, o setor destinou em média US$ 35 bilhões por ano à abertura de novas frentes de exploração, o que representa mais da metade de todo o investimento global em petróleo e gás. As companhias estão sediadas em 45 países, com destaque para economias do Norte Global como Japão, Estados Unidos, Canadá, Rússia e Reino Unido.

Na COP29, realizada em Baku, no Azerbaijão, 1.773 lobistas do setor fósseis foram credenciados — 70% a mais do que todos os delegados somados dos dez países mais vulneráveis ao clima.

Um processo sob influência

O Guardian destaca que a presença massiva de representantes de grandes empresas nas COPs gerou críticas de organizações ambientais e movimentos sociais, que apontam o risco de captura corporativa das negociações.

“Enquanto comunidades da floresta lutam por sobrevivência, as mesmas empresas que causam o colapso climático compram credenciais e influência política para expandir seus impérios fósseis”, afirmou Adilson Vieira, do Grupo de Trabalho Amazônico, ouvido pela reportagem.

Para o palestino Mohammed Usrof, diretor do Palestinian Institute for Climate Strategy, é preciso garantir que transparência e responsabilidade caminhem juntas:

“Não se pode reformar um processo dominado pelas mesmas corporações que estão queimando o planeta”, disse ao jornal britânico.

A COP30 e a encruzilhada da Amazônia

A COP30, que começa na segunda-feira (10) em Belém (PA), será a primeira conferência climática sediada na Amazônia, o que dá ao evento um simbolismo especial. A região é considerada essencial para o equilíbrio climático global e está no centro do debate sobre modelos de transição energética, desmatamento e desenvolvimento sustentável.

A presença de empresas do setor energético — públicas e privadas — reflete também o papel estratégico que o Brasil busca desempenhar na agenda de transição justa, defendendo a diversificação da matriz energética e a inclusão de países em desenvolvimento nas decisões sobre o futuro do planeta.

Três décadas de impasse

Há mais de 30 anos, a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC) tenta construir um consenso global para conter o aquecimento global e reduzir a dependência dos combustíveis fósseis.

Mas, segundo a KBPO, o acesso privilegiado das grandes corporações ainda limita a ambição das políticas climáticas. Embora a COP30 traga novas regras de transparência — exigindo que os participantes não governamentais declarem seus financiadores — a medida é vista como insuficiente para evitar que os mesmos atores econômicos continuem moldando os rumos das negociações.

Mais de 225 organizações e redes internacionais pediram aos organizadores da COP30 um evento “livre de poluidores”, sem patrocínios corporativos e com um marco de responsabilidade que preserve a integridade do processo climático.

O desafio da transição

A investigação do The Guardian reacende o debate sobre o equilíbrio entre participação empresarial e responsabilidade climática. Se, de um lado, as empresas de energia são parte do problema, também precisam ser parte da solução, diante da urgência de reduzir emissões e financiar tecnologias limpas.

Com a Amazônia como palco central, a COP30 representa tanto uma oportunidade de virada quanto um teste político global: conciliar interesses econômicos, justiça climática e soberania ambiental será o verdadeiro desafio para os países — e para o planeta.

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